RESENHA: FRANKENSTEIN OU O MODERNO PROMETEU (LIVRO E FILMES).

“Todo ser humano odeia os desgraçados; só posso então ser muito odiado, sendo a mais desgraçada das criaturas vivas! (…) Não terei eu já sofrido o suficiente, para que você aumente ainda mais o meu infortúnio? (…) Em toda parte vejo a felicidade, da qual só eu estou irrevogavelmente excluso.” ( A CRIATURA DE FRANKENSTEIN)

FICHA TÉCNICA:

Frankenstein ou o Moderno Prometeu, é um romance de terror gótico inspirado no movimento romântico do século XVIII e XIX. Foi escrito entre 1816 e 1817 por Mary Shelley  quando ainda tinha 19 anos de idade. Após o sucesso do livro, no século XX, com a popularidade do cinema mudo, em 1910 teve a sua primeira adaptação mal sucedida para a grande tela, produzida por Thomas Edson (empresário e cientista, “o da lâmpada”). E em 1931, foi imortalizado pela maquiagem caricata e grande interpretação de Boris Karloff, mesmo que não seguindo fielmente o livro escrito por Shelley. O sucesso foi grande, e em 1935, ganhou na sequencia do filme uma noiva, por isso o filme intitulado de “A noiva de Frankenstein”, salpicado de terror, romance e humor negro (a título de curiosidade, o filme ganhou uma terceira sequência “O filho de Frankenstein”, em 1939, ao qual não mencionarei aqui). Mas sem dúvida alguma, a melhor adaptação e mais fiel, ainda que prestando homenagens ao clássico de 31, foi “Frankenstein de Mary Shelley”, de 1994, genialmente interpretado por Robert de Niro.

É importante salientar, que existe um engano quando se fala o nome de Frankenstein, em nenhum momento do livro a criatura recebe um nome, a não ser, os adjetivos: criatura, monstro demônio e outras variedades de xingamentos. Sendo que Frankenstein é o nome do cientista que o concebera a existência.

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O que Frankenstein tem a ver com a teoria do conhecimento.

A ESTÓRIA ORIGINAL.

Toda a estória é narrada em epistolas, compartilhada por três perspectivas: Uma mais objetiva, que é a do desbravador Robert Walton, outra que cobre grande parte do livro na perspectiva do próprio Victor Frankenstein (o cientista), e uma terceira, subjetiva, já que é emprestada da memoria de Victor, ao qual a criatura narra sua história. Portanto, o livro é a reunião fictícia de cartas escritas pelo capitão de navio Robert Walton, para sua irmã em terra. Esse tipo de narrativa, especificamente a história do capitão Walton, é chamada de narrativa moldura (ou quadro), quando uma história conta outra. Um recurso comum na literatura gótica para conferir um tom de realismo.

O capitão Walton, está ao comando de uma expedição náutica em busca de uma passagem para o Polo Norte. Quando sua tripulação avista, sumindo ao horizonte, uma estranha criatura sendo puxado por cães em um trenó. Logo mais, quando o mar se agita, avistam um moribundo em uma balsa de gelo, era o doutor Victor Frankenstein. Resgatado pela tripulação, lentamente recupera suas faculdades e torna-se amigo do capitão Walton, e lhe narra toda a história desde sua infância.

VICTOR FRANKESTEIN.

Victor Frankenstein sempre foi um jovem curioso, ousado e perspicaz. Leitor de livros de filosofia natural, e grande observador da natureza. Um burguês criado no berço do pensamento iluminista, cego pelo resplendor do século das luzes, onde a ciência era seu deus e o progresso seu chão, não mediu esforços para roubar o segredo da criação, o dom de suspender a morte e dar a vida. Assim como no título do livro, um moderno Prometeu desejoso de roubar o fogo do conhecimento dos deuses e vencer os laços naturais da morte, ocupando, assim, o lugar de Deus.

“Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo (…). Ressurreição! Sim, isso seria nada menos que o poder de ressurreição.” [Victor Frankenstein]

Implacável em seu proposito rouba partes de cadáveres do cemitério mais próximo formando um corpo completo. E dessa engenharia, surte vida ao denominado “a criatura”, “o demônio”, “o monstro”. A feição mais horrenda e assustadora, do qual a carne mal cobria os músculos, desajeitado e assombroso. Uma aberração não natural, obra de um homem que fez o impossível para provar sua força contra a morte e quando consegue, percebe que criou algo tão horrendo e inumano, que melhor seria se não viesse a existir. Em face ao horror, revela-se franco e amoral, abandona a criatura, que como criança recém-nascida, chora ao mundo e reclama o direito à existência e suplica acolhimento.

O MONSTRO DE FRANKESTEIN.

A criatura de Frankenstein enfrenta o desafio de se reconhecer num mundo que não é o seu. Abandonado à sua própria sorte, que não é boa.

Como criança, tateia o mundo e experimenta sensações e emoções, sua cabeça é vazia de pensamentos, vazia de palavras, só há o mundo sensível, aquele que se conhece pelas experimentações do corpo: comendo uma fruta pela primeira vez, ou descobrindo a dor de ser hostilizado pela sociedade.  Seu temperamento vai da mais tenra doçura e bondade à mais angustiante tristeza e solidão, e também o mais profundo desejo de vingança e ódio. Com o passar do tempo aprende a falar, a ler e se encanta com a literatura, história, filosofia e os diversos campos do conhecimento. Assusta e fascina de tão doce e denso em seus sentimentos, revela o que pode se tornar um ser quando é desprezado e desprivilegiado pelo ambiente social que o forma.

Esse aspecto da construção da personalidade da criatura serve como alegoria em diversas teorias do campo da epistemologia, um ramo da filosofia que se ocupa em estudar como se forma e como se valida o conhecimento. E também teorias sociais, que discorrem sobre como o meio social influencia na formação do ser.

A FIGURA DO FILME E A FIGURA DO LIVRO.

A imagem que ficou conhecida é a do monstro no filme de 31, extremamente caricata, verde, lento, não fala e não expressa inteligência intelectual, apenas certas características emocionais como grunhidos e sutis expressões faciais. Porem o livro o descreve com as seguintes características: “(…)um ser de estatura gigantesca (…)tendo em torno de dois metros e meio de altura, e o resto do corpo proporcional. (pg 61)” sobre seus movimentos, descreve, “(…)avançando em minha direção numa velocidade sobrenatural. Saltava sobre as fendas do gelo, pelas quais eu passara com cautela. (pg 110)” Sobre a cor de sua pele, relata “A pele amarelada mal cobria a trama de músculos e artérias por baixo; seus cabelos eram de um negro lustroso, e lisos; os dentes, de um branco perolado; mas essas exuberâncias apenas faziam um contraste ainda mais horrível com seus olhos diluídos, que pareciam ter a mesma cor das órbitas branco-pardacentas, e com sua tez enrugada e seus duros lábios pretos. (pg 65)

Além do mais, sua inteligência e eloquência com as palavras são incrivelmente fascinantes. Expressa extrema lucides, por exemplo, ao descrever sua condição de existência no primeiro encontro com seu criador.

“Todo ser humano odeia os desgraçados; só posso então ser muito odiado, sendo a mais desgraçada das criaturas vivas! (…) Não terei eu já sofrido o suficiente, para que você aumente ainda mais o meu infortúnio? (…) Em toda parte vejo a felicidade, da qual só eu estou irrevogavelmente excluso.” (113).

E a resposta mais frequente para suas suplicas ao seu criador é:

“Monstro abominável! Demônio insaciável que você é! As torturas do inferno são uma vingança branda demais para os seus crimes! Diabo miserável! Se me reprova por te-lo criado, aproxime-se para que eu possa extinguir a centelha de vida que tão negligentemente lhe instilei.” (112).

A OBRA, O PERÍODO HISTÓRICO E O MOVIMENTO FILOSÓFICO.

Na Europa do século XVIII uma descoberta chama a atenção e impregna o imaginário coletivo de pensamentos dos mais obscuros. O galvanismo, desenvolvido por Luigi Galvani, fazia percorrer correntes elétricas em corpos mortos de animais e até pessoas, provocando contrações musculares e movimentos involuntários como caretas, expressões vareadas e até movimentos bruscos nos cadáveres. Surge a ideia assombrosa de que a eletricidade seria um dos componentes elementais que possibilitaria devolver a vida a um defunto.

O ambiente científico era efervescente, a filosofia e as ciências estavam nos seus extremos, o período conhecido como iluminismo, onde a razão sufocava o direito à experiência sensorial, o progresso científico avançava em descompasso com a consciência social. A sociedade se torna “a sociedade dos burgueses intelectualizados” e nesse período todo o argumento racionalizado justificava as grandes atrocidades humanas. Apoiado no racionalismo do século XIX vai justificar o Neocolonialismo e Darwinismo Social. No século XX a crença demasiada na razão e na eficiência cientifica serviram como escopo para a Primeira e segunda Guerra Mundial, sendo freada somente depois que grande parte da Europa foi destruída pela força nuclear. E o mundo sofreu com o poder desenfreado da ciência e a crença daquela razão que exclui do homem a capacidade de sentir. Sua própria humanidade.

Um dos movimentos que vai contra o racionalismo e o iluminismo era o romantismo, uma critica à tirania da razão em detrimento da imaginação e sentimento.  Ao qual caracteriza a obra de Mary Shelley.

Em suma, Frankenstein, assim como no titulo, levanta o problema filosófico e histórico do homem querendo roubar o fogo dos deuses, a criatura querendo fazer o papel do criador. Adverte sobre os limites morais e éticos da ciência e se propõe a uma alegoria de horror ao problema histórico da ciência versus religião, razão versus emoção, intelecto versus sentimentos. A busca excessiva pelo conhecimento e os limites éticos da ciência. Requisita ao mundo uma ressignificação, e alerta que a sede de conhecimento e poder é a mãe de todos os monstros, nesse sentido nos tornamos “Frankenstein” criador, e “Frankenstein” criatura. Qual é mais mostro e qual é mais vítima?

Douglas G. Fernandes.frankenstein

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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