SOBRE O SILÊNCIO DAS VOZES QUE GRITAM DENTRO DE NÓS.

“Renato Russo muitas vezes em suas letras cantou a confusão de sentimentos (…) desejou a liberdade de ‘ser’ “, “Cazuza provocador e subversivo por natureza”e “Chorão (…) cantou em suas músicas a esperança”. 

POR: Professor Luciano Roberto.

Renato Russo, Cazuza e Chorão É incrível como ouvir às vozes que gritam silenciosamente dentro de nós pode ser ensurdecedor, por isso, dia após dia preferimos estar distraídos com belas companhias, com a TV, com músicas, com alguma atividade que não nos remeta à nossa própria companhia, parece insuportável olhar para dentro de si, reconhecer-se, autoanalisar-se, geralmente preferimos delegar a terceiros estas funções. Refletir sobre assuntos como “morte e dor”, não se fazem necessário, pois assusta, e para quem foge da própria consciência de ser e estar, tais assuntos parecem ser apenas coisas do espírito que para materialidade alienada não representam nada, além de fatalidades da vida.

Mas também é incrível como pessoas, através, de uma sensibilidade fora do comum, com presença de espírito retumbante e, com imanente transcendência física, conseguem traduzir uma série de sentimentos que estão represados na essência humana.

 Analisando sem muita profundidade, vida e obra de algumas personagens da música brasileira, percebi porque seus legados perduram e perdurarão muitas gerações, gente como Renato Russo, Cazuza e Chorão representam o tipo de pessoas descritas no parágrafo acima. Suas músicas falam de sentimentos mútuos, dos antagonismos protagonistas que dão sentido à vida.

Também é certo que, esses três artistas tinham algo em comum apesar de suas diferenças, era a capacidade de tomarem para si as dores do mundo, eram porta-vozes das angustias, aflições e dores causadas pelo sistema opressor, violento, injusto e desigual que, atinge um contingente exorbitante. Renato Russo muitas vezes em suas letras cantou a confusão de sentimentos que levava a fins trágicos, como no início da música “Pais e Filhos”: “Estátuas, e cofres, e paredes pintadas ninguém sabe o que aconteceu, ela se jogou da janela do quinto andar nada é fácil de entender (…)”, se referindo a cena encontrada pela polícia no apartamento de uma amiga sua que, tinha cometido suicídio se jogando pela janela do apartamento, Renato ainda descreve na música a difícil relação entre pais e filhos que leva o titulo da canção. Podemos citar ainda a confusão de sentimentos que leva à automutilação cantada por ele na música Clarice, ou ainda falar de João Roberto que morre por causa de um coração partido na música intitulada Dezesseis, Renato Russo desejou a liberdade de “ser”, cantada na canção Meninas e Meninos, onde ele revela sua homossexualidade e sua vontade de uma sociedade menos preconceituosa e egoísta.

Já Cazuza provocador e subversivo por natureza, produzira canções que traduziam sentimentos de esperança e otimismo, desilusão e decepção, amor e revolta, arrebatando corações e mentes com suas músicas, como na canção “Burguesia”, onde ele diz que: “a burguesia fede e, enquanto houver burguesia não haverá poesia”, criticando os valores e o modo de vida da classe que era seu berço, mas demonstrando que se sentia como ovelha negra diante dos descalabros históricos cometidos por tal classe. Ele ainda cantou a desilusão e decepção na música “Ideologia”: “e aquele garoto que ia mudar o mundo agora assiste a tudo em cima de um muro, meus heróis morreram de overdose e meus inimigos estão no poder, ideologia eu quero uma pra viver” (…), Cazuza expõe nesta letra, a decepção pelo contexto político e social que influenciava o comportamento da sociedade e, o sentimento de confusão causado por anseios, esperanças e desilusões de uma juventude de consciência política e social.

Chorão o líder da banda Charlie Brown Júnior, cantou em suas músicas a esperança, mesmo em suas letras mais consternas ele deixava a mensagem que tudo poderia dar certo, ele cantou a saudade, o amor, o preconceito, a promiscuidade, a profundidade da essência humana e a superficialidade que essa mesma essência também pode ter, como quando na música “Só os Loucos Sabem” ele diz que: “o impossível é só questão de opinião”, ou na canção “Dias de luta dias de Gloria” onde ele canta: (…) “A vida me ensinou a nunca desistir nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir, podem me tirar tudo que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo, e eu sou feliz e canto e o universo é uma canção eu vou que vou” (…), mostrando como a personalidade humana é composta por uma pluralidade de sentimentos, muitos impossíveis de serem descritos e revelados, a não ser por intermédio de canções que é uma das mais belas expressões do espírito humano e tem intrínseco o caráter transcendental.

Claro que, o legado desses artistas tem muito mais profundidade do que aquilo que foi apresentado aqui. Tomei a liberdade de usa-los como exemplos de pessoas que não só ouviam as vozes que gritavam dentro deles, mas também como pessoas que as libertaram e evidenciaram o que essas vozes retumbantemente entoavam, desvendando assim, através de suas composições, partes em comum de todos nós, e quando ouvimos nossos gritos nas vozes de outros, reconhecemo-los como sendo nossos mais preciosos segredos, ali, cantados e expostos de forma poética acabam por nos humanizar.Renato Russo, Cazuza e Chorão

Os três artistas flertaram com a morte, não temeram-na, a certa altura de suas vidas desejaram-na, e conscientemente de forma deliberada se lançaram em seus braços, o mundo neste plano que conhecemos não era suficiente para eles, não suportavam o egocentrismo sustentado pelo dinheirocentrismo como plataforma da ambição desmedida de uma minoria que molda o modo de vida das sociedades contemporâneas. Logo eles, sensíveis às dores e necessidades do mundo, passaram por esse mundo como estrelas cadentes, resultado, mortes precoces.

Enfim, se faz necessário, o processo de se conhecer melhor enquanto indivíduos, enquanto seres humanos, para entendermos pelo menos parte do complexo universo que nos compõe, e assim, aliviar, já que não podemos evitar as dores e enfermidades do nosso século.

  Luciano Roberto.

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Um Comentário

  1. Joyce

    Parabéns a quem escreveu esse artigo! Realmente conseguiu descrever a enorme importância desses três poetas e porta-vozes das dores alheias.

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