Análise das cenas de UM CÃO ANDALUZ.

ESTE ARTIGO ESTÁ DIVIDIDO ENTRE DUAS PARTES.

Surrealismo em UM CÃO ANDALUZ.

2° Análise das cenas de UM CÃO ANDALUZ.

Lançado em 1928 na França, escrito, dirigido e editado em uma cooperação entre, os até então amigos, Luiz Buñuel e Salvador Dalí. Que expandiram o conceito do movimento surrealista para o cinema. Considerado o primeiro filme dignamente surrealista, com todos os preceitos estéticos e filosóficos extraído direto das entranhas inconscientes de seus idealizadores.

  • Delírios ilogicamente intercalados
  • Forte simbologia de choque
  • Intensificação do absurdo
  • Deslocamento da lógica do encandeamento das ações e as reações estranhas e inesperadas.

Um filme que choca por lançar-se ao absurdo como forma de entregar-se a uma realidade mais completa do que aquela seccionada pela racionalidade enfadonhamente superficial dos últimos séculos.

O movimento surrealista coloca-se em oposição, não à razão, mas sim contra um racionalismo que se inspira maldosamente na filosofia cartesiana e esvazia do mundo uma realidade mais ampla, a do sonho, das vontades e dos sentimentos. Baseado no Manifesto Surrealista de 1924 de André Breton, o surrealismo descreve a si mesmo como uma realidade maravilhosa.

ANÁLISES DE ALGUMAS CENAS.

1. NAVALHA NO OLHO.

NAVALHA NO OLHO.

Logo de início, o filme rompe com a linguagem tradicional, quando no primeiro minuto inicia-se com “era uma vez” e depois da composição de uma cena bizarra anuncia com letras em tela sugerindo “oito anos mais tarde”, dando sequencia a cenas oníricas e ilogicamente intercaladas que, porém, não quebram com a composição de um drama no filme.

– Enquanto o próprio Luiz Buñuel fuma incessantemente seu cigarro fumacento, logo após afiar o fio de sua navalha e comprovar o corte com uma lasca de sua própria unha, observa o céu, a lua e as nuvens. Ao aproximar-se de uma jovem sentada que espera pacientemente pela atenção do fumante de navalha nas mãos. Este, com a outra mão, ajeita as pálpebras arregalando o olho da jovem, e subitamente, como as nuvens cortando a lua no céu, nosso protagonista fumacento divide com a navalha, comprovadamente afiada, o olha da mocinha, partindo-o ao meio.

O Olho é uma imagem recorrente nos temas surrealistas, como uma ponte que tem o poder de unir o interior e o exterior, o consciente e o inconsciente. Ao cortar o olho, é como se Buñuel rompesse com a visão unilateral do espectador e anunciasse uma perspectiva não explorada, a perspectiva do acaso e do aleatório. Aquilo que está por vir, o rompimento da lógica.

2. FORMIGAS NAS MÃOS.

FORMIGAS NAS MÃOS.

Como num sonho perturbador surge nosso herói em sua bicicleta, vestindo uma roupa exótica e uma caixa misteriosa no pescoço a pedalar pela cidade vazia. Em um dos apartamentos, a jovem do inicio do filme lê um livro sentada em sua cadeira, e como se numa visão abissal, pressente a chegada do mocinho que cai imóvel da bicicleta como se o tempo tivesse sessado de seguir, a jovem desce e apanha a caixa do pescoço do nosso herói. Em seu apartamento, tira da caixa uma gravata e monta-a junto à roupa exótica que vestira nosso mocinho, quando logo após ele aparece de pé perto da porta olhando as mãos enquanto formigas saem de um buraco em sua palma.

– Não existe uma interpretação certa dessa cena, alias de nenhuma cena nesse filme, mas algumas coisas podem ser influídas.

Diz-se na França, ou aqui mesmo, que quando alguém tem formigas nas mãos, ou mãos formigando, é uma expressão para o desejo de matar. No sentido do filme pode significar o desejo da eliminação de uma sociedade vazia, o total desprezo por essa sociedade corrompida e uma burguesia hipócrita, presenciado pelo próprio Luis Buñuel em sua infância e vivida por Dalí tempos depois (se bem que Dalí viveu uma vida autentica). O símbolo da formiga é recorrente nas obras de Salvador Dalí.

3. A MÃO NO CHÃO. 

A MÃO NO CHÃO.

Numa sobreposição de imagens, a mão enformigada do nosso herói se transforma no sovaco encabelado da mocinha, que se transforma em um ouriço, que novamente se transforma em uma mão caída no asfalto.

Uma segunda, e bela moça, com trajes e corte de cabelo masculino e um semblante muito triste, cutuca com uma bengala a mão caída no chão, enquanto policiais afastam os curiosos da cena que se assemelha a um acidente. O oficial se abaixa e pega a mão que estava no chão e a guarda na misteriosa caixa que antes estava no pescoço do nosso herói, que simultaneamente está com sua mocinha observando o acontecimento do alto de seu apartamento. O público de curiosos se dispersa, e nossa bela e entristecida jovem encontra-se sozinha na rua com a caixa misteriosa. Os carros começam a passar, e ela como num transe não percebe o perigo de estar em meio a uma rua movimentada. Quando subitamente um carro a atropela deixando-a estirada no chão enquanto os oficiais retornam para limpar a rua de seu corpo caído.

– Uma cena incrivelmente enigmática, difícil de ser interpretada, talvez porque não deva ser traduzida com palavras, mas, deve-se ser absorvida pelos sentidos da emoção que nos comove a cena. Pode-se ser observado seu traje e corte de cabelo masculino, um estilo que representa uma tendência feminista da época. Os cortes curtos e roupas masculinas em uma mulher eram vistos como transgressor à cultura conservadora.

Todo o drama se apresenta como uma inevitabilidade, um choque que resulta de um conflito numa sociedade que se configura pelo espetáculo.

4. OS DEZ MANDAMENTOS, OS BURROS, PIANOS E OS PADRES. 

OS DEZ MANDAMENTOS, OS BURROS, PIANOS E OS PADRES.

Logo após, o drama se volta para nossos dois protagonistas no apartamento. Nosso herói, com um desejo ardente, persegue a protagonista acariciando seus seios que por hora são seios desnudos e outra são nádegas. Revira os olhos e espuma pela boca, dai por diante nossa protagonista o empurra e sai correndo pelo quarto numa cena Hilária. Num corte emblemático nosso herói/vilão/pessoa comum, se vira e apanha do chão, duas cordas, e ao tentar correr ate a direção de nossa jovem protagonista se vê aturdido pelo peso em seus ombros, arrasta com sigo os quilos das tabuas dos dez mandamentos, dois asnos mortos com os olhos jorrando sangue encimados de dois ilustres pianos seguidos de dois padres de olhos arregalados, e novamente, formigas nas mãos.

– Podemos entender essa cena da seguinte forma: O herói, assim como todo homem/mulher, é repleto de desejos eróticos que a sociedade reprime. Todo o homem/mulher tem sobre seus desejos o peso do conceito de pecado, representado na cena pelas tabuas da lei. Mas esse próprio conceito é deturpado pela hipocrisia e moralidade burguesa, representado pelos pianos que carregam sobre si dois asnos mortos, uma cena que vem da própria infância de Buñuel e o marcara por toda sua vida.

“Ainda na infância, um asno apodrecido na estrada, semidevorado por cães e urubus, despertou em Buñuel um horrorizado fascínio pela morte. Assistiu, então, a uma autópsia, embebedando-se para suportar o rangido da serra abrindo o crânio e o estalo das costelas partidas uma a uma. Devido a uma violenta repressão sexual começou a assimilar a morte ao erotismo.” (Surrealismo no cinema, Nazário Luiz).

E ainda, a igreja e o conservadorismo cristão, representado na cena pela imagem dos dois padres de olhos estalados sendo arrastados pelo quarto. Em fim, o homem carrega sobre si o peso de toda uma sociedade hipócrita com conceitos distorcidos. Não é livre.

5. A MORTE.

A MORTE.

E novamente, na sequência, vemos uma total quebra da lógica. De repente nosso herói se vê deitado na cama, com a mesma caixa enigmática no pescoço e a roupa que estava no inicio do filme. O tempo do filme avança e retrocede em um movimento aleatório, evidenciado apenas pelas legendas que intercalam e sobrepõem os acontecimentos, sem que tenham necessariamente um padrão lógico ou de continuidade. Dois livros se transformam em duas armas, que num duelo trágico disparam, como se nosso protagonista atirasse em si mesmo em sua frente, e então cai no chão sem que saibamos se cai morto no presente ou em um passado ao qual remete sua memoria. E então, ao cair, depois de arranhar as costas desnudas de uma moça sentada, está morto no chão de um campo em frente a um lago.

 6. NA PRIMAVERA.

NA PRIMAVERA.

 “Era uma vez”, “Oito anos mais tarde”, “Por volta das três da manhã”, “Dezesseis anos antes”. São algumas legendas que intercalam o filme. E no final uma legenda anuncia “Na primavera”, e avistamos nossa jovem protagonista ao lado de um ressente namorado, ambos enterrados na areia, como quem anuncia o ciclo das relações sociais. Na verdade, nada termina. Certo tipo de pessimismo, o fantasma do defunto a persegue e ela se lança em um novo romance, mas a história das relações sociais se repete independentemente da mudança dos atores.

Douglas G. Fernandes.Obras "Malditas"

Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Um Comentário

  1. Pingback: Luis Buñuel, Salvador Dalí e UM CÃO ANDALUZ. | Portal Alexandria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: