Relatório sobre a organização das manifestações de 2013.

As manifestações de junho de 2013

MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013.Introdução

          O  seguinte relatório tem como objetivo abordar as formas de organização  oriundas das mobilizações de junho/2013 e a singularidade dos movimentos  autônomos diante da luta contra o aumento da tarifa, impulsionada  principalmente pelo Movimento Passe Livre (MPL)

          O  efeito da pluralidade de sujeitos enquanto corpos políticos distintos  que compunham a multidão, unidos em torno de pautas específicas  (revogação do aumento da tarifa) e até de pautas mais gerais, dificultavam a construção de um discurso coletivo ou de consenso. A  diferença aqui, parece mais elucidativa quando se comparados movimentos de caráter autônomo (da tradição anarquista) com a esquerda mais tradicional.

         As formas de organização desses movimentos ditaram quais os modos de se fazer política cada qual assumia, de manifestações pacíficas as expressamente adeptas de ação direta.

Tradição de Luta

         A história de organizações como o MPL vem de uma construção datada do final dos anos 1990 e início dos   2000. É a partir de experiências como o do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) no México, que muitos grupos de esquerda buscaram novas formas de organização para seus movimentos.

         De um encontro zapatista em Barcelona[1], nasce a ideia de se criar um mecanismo que pudesse confederar   movimentos de base voltados para a ação direta, de princípios como “autonomia, horizontalidade, a ideia de não ser uma organização”[2] – a Ação Global dos Povos (AGP), com o primeiro encontro realizado em Genebra no ano de 1998.

         No mesmo período crescem as lutas de resistência diante do processo de globalização, ou seja, contra as investidas do capitalismo que precarizava ainda mais a vida dos/as trabalhadores(as) em escala mundial. No Brasil, o neoliberalismo atua em diversos aspectos, e um  dos mais  marcantes se dá na terceirização e privatização de serviços  públicos, como no caso dos transportes[3].

         É então que diversos movimentos de caráter autônomo e  horizontal ganham maior dimensão em suas lutas, contando com um aparato comunicacional capaz de agregar movimentos de âmbito nacional[4].

         A experiência dessas lutas autônomas agregadas as mobilizações como a “revolta do buzú” (Salvador – 2003), “revolta da catraca” (Florianópolis – 2004) foram, em grande parte, responsáveis para que em 2005, durante o Fórum Social Mundial (FSM) em Florianópolis fosse realizado o primeiro encontro nacional do Movimento Passe Livre.

         Segundo Ortelado, nas mobilizações de junho/2013, o MPL conseguiram elevar a um novo patamar o elemento da organização:

“Conseguiram  colocar uma meta de curto prazo, exequível e intrinsecamente ligada ao  processo de transformação da sociedade que a gente quer.  E valoriza-se o processo de luta, porque é um movimento autônomo, que faz essas discussões de que o processo tem que ser horizontal, independente  dos partidos e etc., mas não descuida da conquista de objetivos práticos de curto prazo que vão acelerar essa passagem pro objetivo de longo prazo.”[5]

JUNHO/2013

         As ruas se tornaram o palco para as imagens e para os corpos, as ruas se tornaram  o espaço onde as imagens se interpenetram num corpo coletivo que clama  por emancipação. As imagens e performances transformaram a subjetividade  das massas, pois não é equivocado afirmar que algum fenômeno as  mobilizou para as ruas e que houveram mudanças significativas na forma  de pensar e de mobilizar as multidões.. Palavras de ordem como: “Pula a  catraca”, “tarifa zero”, “se a tarifa não baixar a cidade vai parar”  tomaram as ruas da cidade, pixadas pelos muros, grafites sobre os  prédios, a rua se tornou o espaço de imagens e o espaço dos corpos; catracas  sendo incendiadas construindo uma alegoria de um conceito radical de  liberdade; os tiros e as bombas de gás lacrimogênio realçaram que “a  liberdade, que só pode ser adquirida neste mundo com mil sacrifício..” (BENJAMIN, 1996, p.32)

“Podemos  entender isso como um reflexo da organização das manifestações, pois  enquanto os sindicatos mantiveram uma posição hierárquica, claramente  visível se pensarmos nos carro de som onde somente certas  pessoas dos  sindicatos podiam falar, a manifestação pela democratização  da mídia  ocorreu de forma mais horizontal, criando um ambiente onde foi  possível  a participação direta de diferentes participantes, fossem eles coletivos ou indivíduos.”[6]

CONCLUSÃO

         Ao invés do tradicional carro de som, as performances. Cria-se então, meios mais dialógicos e democráticos, que como numa malha permeável, se multiplicam  e incorporam-se uns aos outros; expressões de um descontentamento compartilhado onde o espaço público é retomado.

         Em colaboração com as formas físicas de deslocamento de ideias proporcionaram formas  diretas e autônomas de organização e representação, que por sua vez se  tornam conflitantes com o velho jeito de se fazer política  representativa no país.

Renato F. Racin – UNIFESP.

Matheus Silveira – UNIFESP.

Mariane Oliveira da Silva – UNIFESP.

Douglas G. Fernandes – UNIFESP.

Pelé pede que brasileiros protestem só depois da Copa.


[1]    1997, no Segundo Encontro Intergaláctico pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo

[2]    Pablo Ortelado – entrevista com Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR) e Desinformémonos

. http://coletivodar.org/2013/09/pablo-ortellado-experiencia-do-mpl-e-aprendizado-para-o-movimento-autonomo-nao-so-do-brasil-como-do-mundo/. Acesso em 30/1/2014.

[3]    Na   capital paulistana, por exemplo, até o ano de 1995 contava-se com a Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), com cerca de três   mil ônibus operando até 30% do sistema de transporte. É no governo de   Paulo Maluf que adota-se a estratégia de sucateamento do serviço para   posteriormente ser entregue à iniciativa privada. Os reflexos dessa   política podem ser vistos hoje em dia, com um transporte que não atende  a  demanda da população, impedindo o livre direito das pessoas se   locomoverem. O transporte, assim como diversos outros serviços, passou  a  ser uma mera mercadoria controlado por empresas que visam apenas o lucro

[4]    Podemos citar a atuação do Centro de Mídia Independente (CMI) como elemento fortalecedor dessa comunicação.

[5]    Pablo Ortelado – entrevista com Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR) e Desinformémonos

. http://coletivodar.org/2013/09/pablo-ortellado-experiencia-do-mpl-e-aprendizado-para-o-movimento-autonomo-nao-so-do-brasil-como-do-mundo/. Acesso em 30/1/2014.

[6]    “Imagens e impressões das manifestações 11/07/13”, Renato Aymbere  comparando duas distintas manifestações que ocorreram no “Dia Nacional de Lutas”, uma organizada por sindicatos e outra por coletivos autônomos   https://extensao.milharal.org/2013/07/12/manifestacoes-1107-3/. Acesso em 30/01/2014.

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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