O que Frankenstein tem a ver com a teoria do conhecimento.

“Eu dei o meu coração para conhecer a ciência, e conheci a loucura e o desatino. E percebi que tudo é vaidade, futilidade e tormento de espírito, e que em muita sabedoria também há muita dor. E aquele que aumenta o conhecimento, também aumenta a dor. Porque Deus levara em julgamento, cada ação e cada segredo. Sejam eles bons, ou sejam eles maus. ” (Frankenstein de Mary Shelley (1994). “Filme”.)

mary shelley Frase do filme (1994) inspirado na obra de Mary Shelley – Frankenstein (1817). A obra constitui-se como uma crítica à sociedade do século XIX. Remete-nos, entre outras coisas, à antiga discussão no campo da filosofia chamado epistemologia. No qual se procura saber como apreendemos o conhecimento do mundo e a realidade. Através dos sentidos do corpo, olhando, cheirando, tateando etc. Ou através da razão, refletindo, refutando, calculando?

 Se seguirmos na linha cartesiana, razão, cairemos no mesmo erro do cientificismo, a crença de que a ciência é absoluta, fonte de explicação para tudo que existe, e pronta para conduzir o caminho da humanidade, mais ou menos o que foi representado na obra de Shelley. Essa crença justificou o Imperialismo, darwinismo social, eugenia, bomba atômica, Primeira e Segunda Guerra Mundial, Nazismo entre outras coisas. E se deixarmos os impulsos sensoriais, os sentidos, nos dominar, temos como exemplo a Idade Média. Onde os homens repreendiam o pensamento e o raciocínio dando aos acontecimentos da natureza explicações místicas e auto-justificáveis, “Deus quis assim” ou “Deus fez assim”. Que também servia para perpetuar a dominação e aceitação de certo tipo de vida como condição natural para uma servidão voluntária.

A crítica em Frankenstein ainda se mostra atual, pois nossa sociedade tem cravada a cicatriz da racionalização e do operacionalismo cientificista, evidente na política, economia e mesmo nas relações sociais.

Sem duvida vale muito a pena assistir ao filme de 1994, ou principalmente, ler a obra “Frankenstein: o Moderno Prometeu” escrito por Mary Shelley quando ainda tinha seus poucos, mas bem aproveitados, dezenove anos.

Mary Shelley Frankenstein

Só para concluir, deixo um trecho de Mary Shelley descrevendo “a criatura”. Antes é interessante observar que no cinema a criatura de Frankenstein foi retratado como sendo de cor esverdeada, mas no livro a autora o descreve sendo de cor amarelado. Creio eu, que Shelley o imaginara como composto por partes de um corpo desprovido de movimento sanguíneo, como todo defunto recente. E não como um esverdeado podrificado como foi representado nos filmes mais antigos.

 “(…) Sua pele amarela mal cobria o relevo dos músculos e das artérias que jaziam por baixo; seus cabelos eram corrido e de um negro lustroso; seus dentes eram alvos como pérolas. Todas essas exuberâncias, porém, não formavam senão um contraste horrível com seus olhos desmaiados, quase da mesma cor acinzentada das órbitas onde se cravavam, e com a pele encarquilhada e os lábios negros e retos. (…)” (Mary Shelley – Frankenstein. 1817).

 D. Fernandes.

Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

  1. Quando eu li o livro da Mary Shelley, eu fiquei admirado pela forma como essa mulher escrevia e principalmente de toda a crítica que ela tinha pela sociedade e também pelos homens veiculadas por meio do Frankenstein, ou o Prometeu Moderno. O livro é um grande relato sobre algumas partes da Europa e também sobre alguns conhecimentos ocultistas que, de certa forma, juntamente com as ideias de Darwin, contribuíram para a elaboração do livro após o seu ‘terrível sonho’. No entanto, após ler o livro, eu fui logo assistir ao filme de 1994, e eu não gostei de quase nada no filme a não ser a cena da mulherzinha pegando fogo. No filme, é retratado uma ‘criatura’ má e de atitudes terríveis que não condizem com o personagem no livro. Tem uma cena (1994), que me lembro no filme, que era quando o ‘monstro’ mata a irmãzinha do Victor e fala que fez aquilo por ‘ódio’, por raiva, por ‘desejo de matar’ (a frase não é bem essa, mas é algo que remete à essa ideia) e que é completamente desvinculada da obra. O filme é péssimo em comparação ao livro, tanto nas adaptações, quanto das distorções.
    Por isso, é imprescindível a leitura do livro por ser o clássico da literatura de ficção científica (considerada a primeira) e também por ser um grande livro!

    • É bem isso mesmo Vagner, o livro é incrivelmente melhor que os filmes. No meu caso foi o oposto, primeiro assisti aos filmes e depois li o livro. Na verdade foi o clássico de 1931 que fugiu muito do livro, o de 1994, tentou resgatar a estória original e mesmo assim prestando homenagem ao filme de 31, o que ao meu ver, mesmo que nao chegando perto do livro, ficou muito bem realizado, por exemplo: com a cena da Elizabeth que ficou como uma homenagem sutil ao filme de 31 (já que no livro ela não chega a ser avivada.

      Estou migrando de site, essa semana vou fazer um com domínio próprio e mais profissional, provavelmente esse vai ficar como arquivo, quando estiver pronto avisarei,pois muitas pessoas seguem esse blog e algumas se tornaram amigas.

      Tenho tambem um projeto no youtube, estou terminando de editar agora (ai que sono rs) uma vídeo-resenha sobre o livro e relacionando este com os filmes, provavelmente sexta estará no ar. Grande abraço, espero você nos próximos projetos!

  2. Opa, pode deixar. Assim que tiver mudado de site, só avisar que eu sigo sim. E eu vi o seu canal no youtube, na verdade, eu vi o blog depois de ver o seu vídeo-resenha. Ficou muito bom e o conteúdo daqui também é super interessante. Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: