Imagem e crítica filosófica no surrealismo.

Andre Breton Manifesto surrealista  RESUMO.

O intuito deste trabalho é buscar compreender o conceito de imagem surrealista que está no manifesto de André Breton em 1924. Após isso, apontar o que torna o surrealismo um movimento que transcende a vanguarda do século XX e constitui-se em um movimento de crítica filosófica. Para isso analisarei algumas formas estéticas de efetivar a imagem surrealista.

 

  O PROBLEMA HISTÓRICO.

Na primeira metade do século XX, quando o mundo estava em efervescência no período entre guerras, decorrente da disputa imperialista do século XIX, o surrealismo surge como uma contestação do modo de vida burguês. Aponta na sociedade a miséria humana e questiona os motivos da Primeira Guerra Mundial. A sociedade estava impregnada pelos ideais de acumulação de riqueza e eficiência racional. A crença na ciência e na razão enrijeciam as relações sociais e impregnavam com uma falsa moral humana, os homens vivam da aparência de bons costumes, de forma geral, pareciam ter todas as virtudes sem possuir nenhuma delas.

Nesse período, a produção cientifica e filosofia voltava-se para enaltecer a razão humana e suprir as necessidades bélicas que sacudiam o mundo. A racionalidade da elite burguesa suprimia da vida o direito ao erro e a fantasia. Reminiscência da filosofia cartesiana. O homem torna-se objetivo, sistemático e rígido, não dava vazão para o sonho e a realização humana. A filosofia, a arte e a vida social estavam subjugadas à um vicio racionalista. Tal logica obstruía todos os acessos à sensibilidade humana.

O surrealismo surge da emergência de combater essa sociedade. Um movimento vanguardista, que não necessariamente se propunham a algo novo, mas apontava na sociedade uma perspectiva esquecida. Não se restringiam apenas à estética, mas eclode em todas as esferas da experiência humana, portanto, um movimento de crítica filosófica. Descreve uma nova concepção sobre a vida. E constituem-se em oposição àquele período onde o racionalismo permeava todas as instancias do cotidiano.

O MANIFESTO DE 1924 DE BRETON E A IMAGEM SURREALISTA

 Em 1924, André Breton, publica o Manifesto Surrealista. Ergue as bases para quebrar as barreiras entre o sonho e a vigília, aquilo que a razão descartara e fizera o homem ofuscado pelo clarão do dia. O manifesto une-os, sonho e vigília, naquilo que descreve como “realidade maravilhosa”. Uma realidade que não despreza um em detrimento do outro, ou seja, não privilegia nem o sonho e nem a vigília, mas une-os e dá vazão à realidade superior, com todas as suas esferas e complexidades, uma supra realidade. Para isso era necessário ativar o entendimento por meio daquilo que a razão não pode expressar, e trazer um novo sentido ao mundo esvaziado pelo racionalismo. Era necessário erguer a imagem surrealista.

 A palavra sistematizada corrompe o significado e a racionalidade deforma o sentido do que foi dito, porque nem sempre entender pressupõe conhecer ou sentir. Portanto, no manifesto, a imagem surrealista age como um carimbo que imprime no entendimento seu negativo, um lampejo na escuridão que não pode passar sem ser contemplado. Para Breton, a imagem surrealista é aquela que, quanto mais arbitraria e menos possível de se realizar pragmaticamente, ou seja, aquela que não se traduz pela razão e não propõe uma forma linear e lógica. Mais surreal se torna. Em seu manifesto ele vai se apropriar da descrição de Pierre Reverdy para compor seu conceito de imagem:

A imagem é uma criação pura do espírito.

Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas

realidades mais ou menos remotas.

Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades

próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade

poética ela possuirá…

Portanto, a imagem deve se constituir de uma livre associação de ideias, na ausência do controle demasiado da razão. Deve fluir do espírito, por escrito, nas artes plásticas ou qualquer outra forma. É o pensamento na sua forma mais pura e autêntica, sem preocupações estéticas e morais.  O impulso criativo é processado pelo fluxo consciente do autor por meio do seu inconsciente. É escrever, ou falar, ou qualquer outro meio pelo qual se é dirigido pelo inconsciente. Breton vai dar o nome desta técnica de “automatismo psíquico” quando ainda fazia parte do movimento dadaísta junto com Tzara tristã.

A LIVRE ASSOCIAÇÃO DA TEORIA FREUDIANA.

Este processo está fortemente inspirado pelas teorias psicanalíticas de Freud. Ao qual apontava a necessidade do homem de se libertar dos padrões comportamentais e morais estabelecidos pela sociedade e dar vazão aos sonhos e as formações do inconsciente. É a urgência de liberar o Eros na sociedade: às pulsões da vida que integram o contato com o outro, sendo a vida tensões e conflitos permanentes. E nos colocar no interior dos afetos e conflitos que integram o mito, o oculto e o erótico. Coisa que na sociedade racionalista era vista como decadência.

A IMAGEM COMUM E A IMAGEM POÉTICA SURREALISTA.

No manifesto de 1924, Breton faz a crítica e diferencia a imagem comum da imagem no surrealismo: cita, como imagem comum, uma passagem de Crime e Castigo de Dostoiévski “A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo: havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre tudo isso uma luz clara…”. Aponta nessa passagem, como estas imagens são puramente descritivas como quem vende um cartão postal de um acampamento de férias. Circunstanciais, lineares, lógicas, e comparativas, sobreposições de imagens próximas e racionalmente enfadonhas. A crítica não é exatamente sobre o autor, mas sobre uma certa racionalidade que suprime a intensidade dos sentidos, e se limita a analisar e fazer comparações plausíveis.

Da também, exemplos de imagens poéticas “Um pouco à esquerda, em meu firmamento imaginado, vislumbro – será apenas uma névoa de sangue e morte – o brilhante fosco das perturbações da liberdade.” (Louis Aragon). Fica evidente nessa ultima, o choque que causa a imagem estabelecida entre “névoa de sangue e morte” e mais ainda com o extremo na composição de “o brilhante fosco das perturbações da liberdade”. Imagens que não se subordinam ao pensamento racional, e não podem ser entendidas por ele. Distantes em sua composição unem-se e causam confusão, aproximam-se da loucura e do sonho, algo que só pode ser compreendido pelos sentidos e o impacto que causa ao entendimento. Apresenta-se como poesia e dá ressignificação ao mundo, enchendo-o de intensidade e sentido.

A IMAGEM SURREALISTA EM VARIAS FORMAS.

O conceito de imagem surrealista se estende às mais diversas formas estéticas como meio de efetivar uma crítica social e filosófica.

MAX ERNST.

Nas artes plásticas podemos citar Max Ernst. Com sua técnica de frottage, literalmente raspar em francês, vai representar brilhantemente o conceito de automatismo psíquico. Expressando por meio de sua arte a vazão de seu inconsciente com imagens oníricas, bizarras e fantásticas e, por vezes demoníacas.  A forma mais habitual de desenvolver a imagem surrealista por meio dessa técnica era utilizar um lápis macio ou outra ferramenta de arte friccionando-a sobre uma superfície texturizada. A fricção formará imagens aleatórias que o autor enxergará nas ondulações e textura, aquilo que seu inconsciente lhe mostrar. A imagem pode ser trabalhada para melhor expor o que o inconsciente do autor imprimiu ou deixada como foi impressa. Um processo totalmente aleatório que permite a fluidez do inconsciente.

Max-Ernst-La-Roue

SALVADOR DALI.

Podemos citar, propositalmente, outro grande artista plástico surrealista, Salvador Dali. Sua arte difere da técnica de Max Ernst, com imagens igualmente bizarras, oníricas e povoadas por alegorias fantásticas, porém, se o inconsciente de Ernst dava vasão a imagens demoníacas, o de Dali lhe apresenta fortes imagens ligadas ao sexual. Mas o que verdadeiramente causava discussões entre os próprios surrealistas, era a diferença nas técnicas dos dois artistas. Enquanto que Ernst fazia uma arte aleatória, imprimindo instantaneamente seu inconsciente sem a intromissão de pensamentos e direcionamentos racionais. A arte de Dalí se expressava por um processo muito mais técnico, o que tornava o acabamento demorado e podendo sofrer influências externas ao seu inconsciente. O que torna a arte de Dalí surrealista, assim como a de Ernst, é o afastamento da realidade comum conservando a importância do mundo onírico, ilógico. E a vasão do inconsciente relacionado ao livre uso da obra de Freud, permitindo-lhe explorar em sua arte o imaginário e os impulsos ocultos da mente. Porém com o passar do tempo a crítica ao modo de vida burguês, que caracterizava o movimento surrealista, se extingui em Dali e lhe restara apenas a técnica. Motivo de sua expulsão do movimento em 1939.

O_Grande_Masturbador Salvador Dali

LUIZ BUÑUEL.

A imagem surrealista chocou também no cinema de Luiz Buñuel. Cineasta espanhol que com cenas fortes e provocativas rompia com a narrativa lógica e linear, claramente questionava o modo de vida de toda a elite social. Sua técnica e sua crítica permanecem fieis aos ideais surrealistas e a si mesmo até o fim de sua vida. Sua primeira obra “Um Cão Andaluz”, manifesta-se numa troca de sonhos entre Buñuel e Salvador Dalí que conjuntamente produziram o filme. Soube reunir perfeitamente os conceitos surrealistas e aplica-los em suas obras. Em Um Cão Andaluz, está presente toda a dimensão onírica com a justaposição de imagens remotas e distintas que aproximam realidades arbitrarias. Um culto ao pessimismo e forte apelo ao choque visual e moral na sociedade. Se for preciso descrever o cinema de Buñuel, podemos citar conceitos recorrentes em suas obras: forte simbologia do choque, como na celebre cena em que ele próprio corta o olho de uma mulher com uma navalha (Um Cão Andaluz), imagens que se constituem como delírios ilogicamente intercalados, intensificação do absurdo, deslocamento da lógica e do encandeamento das ações e as reações estranhas e inesperadas. Sem duvida alguma, sua obra contemplou o surrealismo como nenhuma outra no sentido de atingir uma reflexão na sociedade. Enquanto que as obras em tela ou literatura atingiam muito mais fortemente a elite, o cinema de Buñuel chegava ate as classes menos elitistas.

um cão andaluz, luiz bunuel

O ERRO COMUM EM DEFINIR O SURREALISMO.

Podemos concluir que as imagens surrealistas se manifestam de formas diferentes, porém, seja na literatura, belas artes ou cinema, a essência permanece: a emersão do inconsciente, a valorização da afetividade e da descoberta de uma realidade que contemple múltiplos aspectos da vida e do ser humano.

Erro comum é associar o surrealismo puramente ao sonho ou ao irracional, sendo que são exatamente estes elementos que os surrealistas combateram: a racionalidade mecânica na sociedade que buscavam a eficiência para o lucro e o comércio, à medida que tornam as relações mecanizadas com um proposito muitas vezes utilitarista, leva a uma alienação da afetividade humana. Nessa esteira a própria racionalidade, vista como eficiência à busca do caminho mais curto para os propósitos, constitui-se em uma busca irracional que destrói os lações que constituem a possibilidade da vida humana, saudável e plena. Enquanto ao homem que se perde no sonho, aquele que na rotina incessante do trabalho sonha eternamente em estar em outro lugar, constitui-se em um ser alienado! Pois sonha com amor, sonha com liberdade, sonha com afetividade, e nunca deixa de sonhar, ao mesmo tempo perde-se no sonho e não o realiza. Para este, o surrealismo constitui-se como crítica filosófica ontológica à liberdade humana, questiona a realidade e da vazão aos sentimentos devolvendo à um mundo esvaziado, sua significação.

Douglas G. Fernandes – UNIFESP.

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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