A CRÍTICA À SOCIEDADE EM ROUSSEAU E O MODO DE VIDA CONTEMPORÂNEO.

Reflexão sobre a sociedade, a técnica e as tecnologias tendo como base as obras de Rousseau.

 

Jean Jacques Rousseau. 1712 - 1778. Importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo

Jean Jacques Rousseau. 1712 – 1778. Importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo

Resumo.

Rousseau, em suas obras, nos aponta a dimensão alienante do desenvolvimento das ciências e da técnica. Questiona o racionalismo presente no século das luzes e a sociedade que se estabelece no acordo destes princípios. Princípios que se estendem conceitualmente até a sociedade atual onde as tecnologias e o processo de produção das condições materiais de existência da vida humana avançaram a tal ponto de tomar caráter “místico”, exercendo poder sobre o homem dos dias atuais como se possuíssem vida em si, consequentemente, tirando-o da consciência de si mesmo, levando-o a procurar sua representação em objetos de consumo.

Já no século XVIII, Rousseau denuncia o restabelecimento das ciências e das artes como elementos que eleva a vaidade e os vícios na sociedade, coagem a virtude e oprime a verdadeira equidade das relações sociais.

 A partir das obras de Rousseau, mais especificamente “O discurso sobre as ciências e as artes” poderemos fazer um paralelo com os processos históricos que culminaram em nossa sociedade, encontrando em Rousseau, a crítica à sociedade nos moldes do racionalismo capitalista e o advento das técnicas e as tecnologias.

  •        A crítica à elite.

Poderíamos neste trabalho, abordar inúmeras obras de Rousseau no intuito de compreender os processos históricos que culminaram na nossa sociedade capitalista, extremamente hierarquizada e burocrática, onde as relações humanas se tornam utilitaristas e perdem o caráter estritamente afetivo e convergente que enaltecem sem esforço o principio humano de qualquer relação social. Porém, visto a densidade que esta no “Discurso sobre as ciências e as artes” e a contemporaneidade da crítica, nos reteremos a analisar essa obra, relacionando-a com a sociedade atual onde predominam o desenvolvimento cientifico e tecnológico que já estava presente na crítica ao racionalismo das luzes do século XVIII.

Já ao introduzirmos na leitura do primeiro discurso de Rousseau, direcionado a academia de Dijon em 1750, nos deparamos com uma advertência do autor. Remete-nos a questionar sobre “Que é a celebridade”, afirma ter sido graças ao discurso que ele próprio conquistou a sua e com ela as perseguições.  Não poderia ser diferente, o autor escreve direcionado à elite intelectual uma critica aos princípios dessa sociedade, repudia ao que chamou de “sutilezas metafisicas” e atribui o discurso às “verdades que se relacionam com a felicidade do gênero humano”. Deixa bem claro que “não me preocupo em agradar nem aos belos espíritos nem à gente da moda”. Condena os costumes que nascem do restabelecimento (Renascença) das ciências e das artes e coloca em exame o valor moral do humanismo.

Nessa sociedade, a qual Rousseau aborda, a virtude dá lugar às vaidades, e no comércio das artes se estabelece as sutilezas de costumes e o enaltecimento das personalidades. As relações se tornam trocas de títulos e contemplação do luxo e da ociosidade, o individuo não mais se apresenta como se é, faz uso dos costumes para obter benefícios de uma aparência moral. A pura afetividade, equilátera e convergente, é suprimida por costumes políticos lustrados por uma sociabilidade de interesses particulares. As artes inspiram as sutilezas nas relações comerciais e contaminam os costumes.

Frontispício da Encyclopédie (1772), desenhado por Charles-Nicolas Cochin e gravado por Bonaventure-Louis Prévost. Esta obra está carregada de simbolismo: a figura do centro representa a verdade – rodeada por luz intensa (o símbolo central do iluminismo). Duas outras figuras à direita, a razão e a filosofia, estão a retirar o manto sobre a verdade.

Frontispício da Encyclopédie (1772), desenhado por Charles-Nicolas Cochin e gravado por Bonaventure-Louis Prévost. Esta obra está carregada de simbolismo: a figura do centro representa a verdade – rodeada por luz intensa (o símbolo central do iluminismo). Duas outras figuras à direita, a razão e a filosofia, estão a retirar o manto sobre a verdade.

O comércio adquire espontaneidade, o germe do mercado impõe suas exigências, e o homem apara suas arestas para se amoldar à “polidez” de costumes nisso que Rousseau chamou de “rebanho” de sociedade. Um gosto apurado à arte de agradar, desvios de caráter encobertos por costumes que se encontram com intensidade nas cidades onde as artes e as ciências são enaltecidas. Falsa uniformidade que conduz as relações sociais à um jogo de vícios políticos e comerciais. Assim descreve Rousseau, a polidez social. Podemos ilustrar para maior entendimento com uma simples frase do autor “Os antigos políticos falavam, sem cessar, de costumes e de virtude: os nossos só falam de comercio e de dinheiro”.  Não nos surpreende como estas coisas, as quais se refere Rousseau, nos são tão familiares. Já no século XVIII o autor identifica aquilo que mais tarde será o responsável pela nossa frieza social, perca de nossa identidade e a nossa subordinação aos aparatos técnicos e tecnológicos: a racionalidade na produção da vida material e o consumo de coisas supérfluas que alimenta o mercado ao qual nós nos inserimos como agentes e como coisas destinadas a produzir e a consumir. Uma deterioração na sociedade proveniente do discurso racional que abrange o comércio e o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias voltados à ostentação.

O comercio nos apresenta o seu senhor, e este nos impõe algemas, às quais a sociedade agrada-se em não querer enxerga-la. Para Rousseau estes são povos policiados, submetidos às exigências formais de uma racionalidade social. A polidez nos costumes e nos tratos sociais facilita o comércio e toma o lugar do caráter com sutilezas que imitam uma falsa aparência de virtude, nas palavras do autor “a aparência de todas as virtudes sem que se possua nenhuma delas”.

  • O trabalho, a técnica e as tecnologias

Em decorrência disto, as relações interpessoais são afetadas por esse tipo de conduta racionalmente interessada. A espontaneidade dos laços afetivos é trocada e sistematicamente pensada de forma utilitarista: a amizade perde o caráter convergente e equitativo, e os negócios são selados com mentiras. A polidez sutil nos induz a uma alienação da afetividade, onde para conhecer o outro é necessário passar pelas provações e os constrangimentos que a vida nos impõe de surpresa. Caso essa provação não venha, não saberemos se a amizade se sustenta e se vier corremos o risco de descobrir o lobo na pele do cordeiro. Em nossa sociedade, não mais nos reconhecemos em nós mesmos e nem reconhecemos o outro como uma extensão do nosso “Eu”. Assim como no século das luzes de Rousseau, vivemos esse dilema. Estamos alienados! Nossa identidade nos é expropriada, o homem é trocado pela função que exerce, ou pelo cargo que ocupa. Não podemos mais rejeitar o tempo social, o tempo do trabalhador, o tempo do funcionário, se não é o relógio que nos lembre, ou o despertador que grita para levantar e andar, o sinal das fabricas nos diz com rotineiros assobios a hora certa de chegar, almoçar e ir embora. Os sessenta segundos do relógio são calculados um a um, mas o tempo de amar, viver e realizar é cronometrado com as sobras do tempo socialmente necessário a produção do trabalho capitalista, sendo que esse ultimo nunca chega, nunca realizamos. O trabalhador vive a sonhar pelos corredores da fabrica ou nas mesas dos escritórios, sonha para fugir dos minutos do relógio, mas batido o sinal esquece e se devaneia em novos sonhos. Aprendemos desde cedo nas escolas a hora certa, crescemos ouvindo o estalar daquele assobio, e entramos no ritmo das maquinas desenvolvidas para nossa alienação.  Na sociedade contemporânea, vivemos o dilema do “Eu” tentamos nos encontrar de qualquer maneira, pois naturalmente sabemos que falta algo, só não sabemos bem o que. Substituímos o “ser” pelo “ter” e é nas tecnologias que tentamos nos encontrar. Impossível nos é ficar só e nos encontrar, se no tempo de Rousseau, os homens perdiam-se ofuscados pelas luzes, hoje temos todo um aparato tecnológico para nos distrair à nossa procura, só ficamos a sós com a televisão ou o radio, mais recentemente a internet e os celulares e toda uma parafernália que nos tira de nós mesmos. Não suportamos estar com este “Eu” que nos diz que algo esta errado. Quando na fabrica ou na empresa, ficamos rodeados por maquinas. Uma só substitui cem homens e a nossa relação com o trabalho se torna relação com as maquinas.

  •  A sofisticação tecnológica na sociedade 

Rousseau acusa o motivo que historicamente nos remete a este estado de coisas “Nossas almas se corromperam à medida que nossas ciências e nossas artes avançaram no sentido da perfeição.” Uma busca por eficiência e por uma pretensa verdade que se encontra naquilo que em sua advertência, Rousseau, referiu-se como “sutilezas metafisicas que invadiram todas as partes da literatura” e permeava o pensamento do século das luzes. Costumes erguidos sobre a base do pensamento racionalista de Descartes, e abrangem todas as esferas da vida social suprimindo do homem aquilo que lhe torna mais humano, sua espontaneidade, a ligação com a natureza dos sentidos. A razão alimenta a ciência e as artes, e corrompe a humanidade numa relação de interdependência. Para comprovar essa teoria o autor cita algumas civilizações antigas, entre elas Esparta e Atenas. Nessa ultima, vai dizer que “torna-se a sede da polidez e do bom gosto, o país [Grécia] dos oradores e dos filósofos” de onde “saíram essas obras surpreendentes que serviram de modelo em todas as idades corrompidas” cita também como um resguardo em Atenas, o filosofo Sócrates “Eis, pois, o mais sábio dos homens, segundo o julgamento dos deuses, e o mais sábio dos atenienses, segundo o sentimento da Grécia inteira. Sócrates, a fazer o elogio da ignorância!”. Refere-se ao exame que Sócrates submete aos poetas, artistas, políticos e sábios de Atenas, após o oraculo dizer que Sócrates era o mais sábio dentre os gregos, e conclui que o verdadeiro conhecimento esta em saber a medida daquilo que se-ignora, como  na celebre frase “sei que nada sei”, portanto, a verdadeira virtude é conhecer a si mesmo. Exatamente o oposto que a civilização estava fazendo. A isto Rousseau vai concordar ao final do discurso dizendo que “a verdadeira filosofia” é “voltar-se sobre si mesmo e ouvir a voz da consciência no silencio das paixões”. O autor condena as civilizações que procuraram nas artes e nas ciências seu desenvolvimento, diz que todas elas se destinaram a corrupção e a dissolução dos costumes. Salvo Esparta, que com vigor “expulsavas dos [-] muros as artes e os artistas, as ciências e os sábios!” e assim conservavam sua virtude e seus costumes. A respeito das ciências, diz que são frutos nascidos da ociosidade, desperdício de tempo que juntamente com as artes, atraem o homem para o luxo e as vaidades, sendo que a virtude e estes dois não andam de mãos dadas.

  •  As ciências e as artes.

É através do desenvolvimento das ciências e das artes que se dá a coerção na sociedade contemporânea. Rousseau já identificara isso quando o germe do capitalismo ainda estava se nutrindo na sociedade. As tecnologias servem para inserir o homem no mercado de consumo, estreita nossas relações sociais à relações intermediadas por maquinas. Na televisão, nos cinemas ou nos Outdoors estão impressos os ídolos da sociedade contemporânea, artes que coagem o homem para comprar e consumir, o que devem vestir e o que devem pensar. Um bombardeio de imagens e informações que nos remete ao vazio de existir.

Podemos fazer um paralelo contemporâneo com tudo que O filosofo denunciara em sua sociedade: O racionalismo no modo de produzir a vida torna-se o grande “justificador” da dominação da Ásia e da África pelas ditas sociedades avançadas no século XIX. A disputa por conquista e subjugação culminou na Primeira e Segunda Grande Guerra Mundial no século XX. Que sem duvida, seguidas da Guerra Fria, foram as guerras das máquinas e do desenvolvimento técnico-cientifico-informacional. Gás de mostarda, tanques de guerra, submarinos, aviões, Bombas atômicas, exemplos de tecnologias à serviço da destruição.

 A polidez nas relações sociais nos remeteu a interações vazias e utilitaristas onde a palavra virtuosa dos contratos sociais é substituída por folhas de papeis carimbadas que carregam um logotipo da instituição que media o acordo.

O homem já não é mais bom, está corrompido pela civilização, deve ele refazer um acordo e encontrar seu caminho. Na esteira da crítica de Rousseau, podemos cita-lo nas páginas finais do seu discurso, quando diz. “Que os nossos políticos se dignem suspender seus cálculos para refletir sobre esses exemplos, e que aprendam, por uma vez, que se tem tudo com o dinheiro, exceto costumes e cidadãos”.

Douglas G. Fernandes – UNIFESP.

VEJA TAMBÉM:

Rousseau “Discurso Sobre as Ciências e as Artes” PDF

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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