O CONCEITO DE IMAGEM SURREALISTA EM BRETON.

Andre Breton

O manifesto surrealista de 1924 se constitui em oposição àquele período onde o racionalismo oprimia (e de certo ainda oprime) a liberdade artística, filosófica e social do Homem. Toda a produção intelectual, assim como as instancias que afetam o cotidiano, estava posta sob uma divisão que subjugava a liberdade imaginativa a um vicio racionalista. O pensamento, então, era oprimido a seguir caminhos preestabelecidos, mortificado pela exigência de uma lógica racionalista que se limitava a classificar e glutinar um pensamento ao outro. Tal lógica destruía todas as vias de acesso à sensibilidade humana. Os movimentos de vanguarda perceberam que este racionalismo não permitia ao pensamento humano atingir um alto grau de compreensão e crítica de sua realidade. Era necessário então, lançar fora os antolhos que limitava o pensamento e quebrar as barreiras entre o sonho e a vigília unindo-os em uma realidade absoluta, uma “realidade maravilhosa”.Automatismo psíquico

O manifesto anuncia a importância do sonho, do irracional e do inconsciente fazendo livre uso da obra de Freud. E ai reside o conceito de imagem surrealista. Um conceito dentro de um movimento vanguardista que não se restringe à arte propriamente, mas eclodi em todas as esferas da experiência humana.

Breton faz a crítica e diferencia a imagem comum da imagem no surrealismo: cita uma passagem, como imagem comum, de Crime e Castigo de Dostoievski “A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo: havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre tudo isso uma luz clara…”. Vai também dar exemplos de imagens poéticas surrealistas onde percebemos claramente a distinção entre tais imagens “Um pouco à esquerda, em meu firmamento imaginado, vislumbro – será apenas uma névoa de sangue e morte – o brilhante fosco das perturbações da liberdade.” (Louis Aragon). Fica evidente nessa ultima, o estranhamento que causa a imagem estabelecida entre “névoa de sangue e morte” e mais ainda com o estremo na composição de “o brilhante fosco das perturbações da liberdade”. Tais imagens não estão à nível de simples comparações ou sobreposições, mas se colocam a beira da loucura e do próprio sonho, algo que só pode ser compreendido pelos sentidos e o impacto que causa ao entendimento, quase que como um negativo em nosso espírito imprimindo um mundo de sentido e significado onde a razão não alcança.

A imagem comum se limita a analisar, comparar e a fazer aproximações plausíveis, subalternas à lógica racionalista. Por vezes enfadonha, limitada e cansativa. O que ate então vinha sendo feito não permitia ao espirito humano se elevar e desbravar as esferas do misterioso e do incompreensível, aquilo que a razão não podia conceber. Além de que, a lógica (de acordo com Breton) tem seu lugar nas descobertas humanas. Mas este lugar deve ser indivisível dos sentidos e da permissão da própria loucura. Pois foi o próprio Breton que escreveu “Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.” Permitiu-se Colombo a desbravar caminhos errantes, tido como louco desafiou a razão de sua época.

 A imagem no surrealismo se apresenta como poesia, onde quanto menos próxima de comparação mais se torna surreal e repleta de intensidade. Imagens poéticas que a lógica assemelha com a loucura, mas o espírito absorve com impacto dos sentidos. Para além da própria arte poética, é ativar a compreensão e o entendimento pela via dos sentidos que contorcem o corpo. Por meio da liberação do inconsciente, a imagem surrealista desobstrui a compreensão da realidade por uma ótica superior, chamada “maravilhosa”.

Na poesia está a compreensão de nossas misérias enquanto seres humanos, e na imaginação poética está a imagem. Uma expressão pura do espírito que só o espírito absorve.

Portanto, a imagem no surrealismo de Breton, atende as exigências do próprio espírito, sem receios morais, estéticos e a imposição da razão. Estabelece uma realidade superior àquelas que outrora estavam sujeitas a unilateralidade da razão. Suscita, a imagem poética, a cessão de antigas antinomias e a emergência de forças do entendimento que estavam em um estado mais profundo em nossa mente. Diz-nos Breton que “As palavras, as imagens não se oferecem senão como trampolim ao espirito de quem escuta”. A imagem exprime a realidade mais profunda por meio do “Automatismo psíquico” estado puro do pensamento em que é revelado seu verdadeiro funcionamento e sua verdadeira função, sem se debater com processos racionais que limita o entendimento.

Douglas G. Fernandes

________________

Breton, André. Manifesto do surrealismo. (Trad. Sérgio Pachá) Rio de Janeiro: Nau, 2001.

________________

VEJA TAMBÉM: Dadaísmo: “Manifesto do Sr. Antypirina” – “Manifesto dadá 1918”, fichamento.

Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: