Donnie Darko I: A crítica e a Filosofia.

donnie-darko filme

COMO A OBRA é muito complexa, preferi dividir em três postagens com categorias diferentes:

  • 1° – Donnie Darko I: A crítica e a Filosofia.
  • 2° – Donnie Darko II: A filosofia da viagem no tempo por Roberta Sparrow. (aguardem postagem!)
  • 3° – Donnie Darko III: A teoria do UNIVERSO TANGENTE . (aguardem postagem!)

Quem é Donnie Darko?

Donnie (Donald) Darko, é um jovem muito inteligente com problemas psiquiátricos e que geralmente se envolve em confusões. Apesar de ser muito amado e compreendido por sua família, se sente sozinho e confuso.

 Donnie tem uma vida comum numa cidade simples ambientada no final dos anos 80, uma família bem estruturada com: pai, mãe, irmã e irmã caçula (Samanta Darko, que será a protagonista da continuação). Estuda numa escola onde acontecem coisas comuns com jovens cheios de complexos, o normal da adolescência.

Donnie Darko

Donnie Darko

 Tudo muda quando numa noite é salvo por um coelho sinistro antropomórfico, que o chama para fora de casa antes que uma turbina de avião caia em cima do seu quarto por um portal no céu, dividindo o espaço tempo num UNIVERSO TANGENTE (calma você só vai entender isso muito depois!).

A estória que envolve Donnie, é incrivelmente difícil de ser explicada, e talvez não deva ser. Complexa, bem estruturada e multitemática. É daquelas obras que foram feitas para serem absorvidas, cabendo a cada um uma interpretação. Por isso não vou tentar explicar ou fazer teorias conclusivas no sentido de tornar o filme mais linear. Até mesmo porque na internet já existem varias tentativas (nenhuma bem sucedida), e como já disse antes, a obra não deve ter, necessariamente, uma explicação. Mas sim uma apreciação!

A trama: sociedade – dogmas e costumes.

O filme não é necessariamente uma crítica, se compõe mais como um apontamento a sociedade; seus dogmas e costumes.

A estória se inicia com um movimento suave de câmera que vai se aproximando e nos apresenta Donnie Darko, deitado ao lado de sua bicicleta no meio da estrada em uma paisagem montanhosa. De inicio percebemos que Donnie não é um jovem comum, muito mais introspectivo e misterioso. Um giro de câmera e Donnie se-levanta olhando o horizonte, meio confuso por um instante, logo depois volta seu olhar para baixo como que procurando dentro de sí uma resposta, e em seguida se compõe num sorriso enigmático, como se soubesse tudo que iria acontecer. E de certo é isso mesmo, quando assistimos ao filme duas vezes percebemos que a estória começa pelo final.

Logo de início sentimos o espirito que acompanha o drama. Uma família simples numa sociedade dividida que busca na religião, livros de autoajuda e nas terapias amenizar seus problemas.

Donnie representa um paradigma nessa sociedade, geralmente se mete em problemas, questiona seus professores e a realidade como se apresenta. Toma remédios para problemas neurológicos, um problema chamado de alucinação da luz do dia, o que o coloca em desvios de percepção da realidade, e por isso, um personagem singular.

Donnie, não é um vilão nem um mau caráter, pelo contrario, se apresenta como um salvador mal compreendido. Isso fica evidente quando seu amigo invisível fantasiado de coelho, o Frank, lhe da a missão de colocar fogo na casa de uma pessoa respeitável pela sociedade, o típico hipócrita de aparência respeitável, metido a guru, que gosta de julgar os outros como se tivesse a resposta para os problemas da humanidade, e no final por consequência do incêndio, é descoberto um verdadeiro porão de pedofilia desvelando a hipocrisia humana.

O coelho gigante chamado Frank.

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Tudo se desenrola quando uma turbina de avião cai inexplicavelmente em cima do quarto de Donnie Darko. Salvo por um coelho gigante, Frank, que o chama para fora de casa e lhe da a intrigante noticia de que o mundo iria acabar em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. Após isso, Donnie acorda em um campo de golfe, escapando de morrer de baixo da turbina. A partir de então Frankie passa a orienta-lo em certas tarefas que devem ser feitas antes do mundo acabar.

No filme inteiro percebemos certa gratidão de Donnie, acompanhada por uma antipatia que sente por Frank. Em uma cena em que Frank aparece para Donnie Darko sozinho em casa, Donnie sobriamente tenta furar a barreira invisível, quase que como um escudo transparente que dividia os dois, claramente projetando a faca no olho direito de Frankie.

Outra cena interessante que sem duvida marcou o filme, é quando Donnie está no cinema com sua recente “namorada” (Gretchen), que acaba dormindo no filme (aliás, o clássico Evil dead), e Donnie olha para o lado e vê seu amigo imaginário Frankie. Donnie pergunta.

 -Por que você usa essa fantasia idiota de coelho?

 Frankie – Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de homem?  (Deixo a interpretações!)Donnie-Darko

Logo após Frankie retira sua mascara de coelho gigante e percebemos que ele levou um tiro bem no meio do olho direito e só no final do filme entendemos quem realmente é Frankie e o motivo do tiro.

Questões filosóficas.

Toda a trama se passa em uma sociedade dividida entre conservadores e liberais (um ambiente bem anos 80), evidenciado tanto na discussão política que permeia as primeiras cenas como em todo o resto do filme que coloca o ambiente escolar como o catalizador de todos os conflitos da sociedade.

É na escola que Donnie vai experimentar seus momentos de maior liberdade: interagindo com os amigos, questionando ou se apoiando nos professores, fazendo coisas proibidas como fumar longe dos pais, desenvolver relacionamentos afetivos e dividir o peso de sua adolescência.

Em apenas dois momentos podemos observar que a fotografia utilizada no filme foi mais clara e alegre que o montante, quando Donnie está na escola e quando ele está em um cenário incrivelmente montado, dois sofás sujos no meio das montanhas, longe da cidade, colocado como refugio onde Donnie pode ser ele mesmo sem medo e sem complexos!

  • Criação e destruição.

Em uma aula, a professora de literatura inglesa  Karen (Drew Barrymore ), levanta a seguinte discussão com base no autor Gahan green.

-“Saiu nas manchetes dos jornais, grupo de estudantes invadem e destroem sem a menor dó e compaixão casarão de um ancião, contudo eles planejaram isso a vida toda. Plano alimentado durante as estações, agora realizado ao completarem 15 anos, na fase mais doida da puberdade”. O que Gahan green tenta comunicar nessa passagem? O que significa invasão a casa do ancião?

-Eles foram lá roubar – responde sem sucesso uma aluna logo reprendida por não ter lido o resumo do livro que aponta a existência de dinheiro debaixo do colchão, os jovens identificaram, mas não o quiseram roubar. Em seguida direciona a questão à Donnie dando a entender que ele já praticara atos iguais aos citados. E donnie em seguida responde.

-Disseram recentemente depois de uma grande enchente que “Destruição é uma forma de criação” então o fato de queimarem o dinheiro é irônico, querem ver o que acontece quando sacudirem o mundo querem mudar as coisas!

Isso é uma referencia ao final do filme e ao começo do filme, onde as coisas realmente começam a acontecer quando a turbina cai em cima do quarto de Donnie e o destroí, não só como um simbolismo, mas como algo fundamental às transformações no filme tanto no inicio como no final do filme, que são ironicamente o mesmo!

  • A linha da vida.Donnie-Darko - medo- amor

Em outros momentos são levantadas questões a respeito da vida e do ser humano. Certa professora de caráter conservador passa um vídeo de um autor local de livros de autoajuda (Patrick Swayze) no qual posiciona a vida em dois extremos, o medo e o amor. Em seguida a professora propõe o seguinte exercício.

-Nesses oito cartões há um dilema de caráter, que se aplicam à linha da vida (medo e amor) (…) cada um vai ler o seu dilema e indicar com um x em que linha da vida pertence.

Depois de uma aluna, Donnie Darko é chamado a ler seu cartão, se recusa a indicar a qual linha da vida pertence seu dilema!

 – Donnie – Não se pode dividir as coisas em duas categorias a vida não é tão simples! (…) tem outras coisas que precisão ser consideradas, como todo o espectro da emoção humana. Você não pode simplesmente colocar tudo em apenas duas categorias e negar o resto.

A professora simplesmente não leva em consideração e diz que se não completar o exercício vai levar um zero! Consequentemente Donnie manda a professora tomar naquele lugar e vai parar na diretoria.

 Uma cena ate engraçada que revela a profundidade teórica colocada de maneira que se encaixa no contexto do filme. O proprio filme cumpre muito bem a tarefa de mostrar múltiplas facetas da vida, correlaciona vários temas de tal naturalidade que nunca antes fora trabalhado no cinema!

  • Cada criatura viva na terra morre sozinha.

Roberta Sparrow - vovó morte

Nas primeiras partes do filme, o pai de Donnie o busca de carro na escola, no caminho devido a distração, chega a quase atropelar uma velha senhora que mora numa antiga casa reclusa no meio da estrada, chamada de vovó surda ou vovó morte, (mais tarde descobriremos que seu nome é Roberta Sparrow). Quando Donnie sai do carro para ver se está tudo bem, ela se aproxima e cochicha algo no ouvido dele. Mas a frente no filme, quando Donnie está falando com sua psicóloga sobre o que aconteceu, ela pergunta.

– Donnie o que Roberta Sparrow disse para você?

Donnie – Que cada criatura viva na terra morre sozinha!

-O que sentiu sobre isso?

-Donnie – Eu lembrei da minha cadela Kelly, morreu quando eu tinha oito anos, foi se arrastando ate o jardim.

-Para morrer!?

-Pra ficar só!

-Vc esta se sentindo sozinho?

-Eu não sei, eu queria muito acreditar que não, mas, é que eu nunca vi nenhuma prova, mas é que!? Eu não quero mais falar sobre isso, entende, é como. Eu posso passar a minha vida toda vindo aqui falando dos prós e dos contras, debatendo e ainda assim não ter nenhuma prova então, eu não quero mais falar sobre isso! É absurdo!

– A busca por Deus é absurda?

-É se todo mundo morrer sozinho!

-Isso te assusta

– Eu não quero ficar só!

Aqui vemos um dialogo profundo, não questionando a existência ou não de Deus, mas colocando essa existência na perspectiva da própria busca. Como o homem questiona sua própria existência, como questiona sua realidade e como o homem governa seu destino? Não importa o que façamos, a morte é o momento mais intimo do homem, quando será colocada em cheque sua existência, e sua vida será pesada individualmente! Desde essa conversa ate o fim do filme percebemos que o homem conhece seu valor na hora da morte!

Douglas G. Fernandes.

CONTINUA EM:

  •  Donnie Darko II: A filosofia da viagem no tempo por Roberta Sparrow.
  •  Donnie Darko III: A teoria do UNIVERSO TANGENTE .
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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

  1. Kir Carson

    E a segunda parte do artigo?

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