O PROCESSO DE ABSTRAÇÃO DO TRABALHO E O REINO DA IDENTIDADE (UMA CRÍTICA MARXIANA).

Karl Marx

Karl Marx

Em Marx, o produto do trabalho humano toma forma tanto de valor de uso, quando valor de troca, no entanto no sistema capitalista de produção, a sobreposição do Valor ao valor de uso torna a mercadoria um ser autônomo em relação a sua produção, negando os processos sociais que a levaram a existir e interiorizando seu valor de uso. A divisão social do trabalho, no seu caráter privado, implica na produção de mercadorias, produto destinado a uma lógica de um mercado racionalizado, subtraindo assim a característica concreta do trabalho humano em detrimento ao trabalho abstrato. O trabalho torna-se indiferente a si próprio e a essência de sua origem, abstraído de suas especificidades. A abstração do trabalho atribui à mercadoria uma objetividade fantasmagórica, um aspecto místico, autônomo e aparentemente natural. Lukacs vai nos dizer que.

Leia também. O resgate do Marxismo em lukács e Holloway.

A essência da estrutura mercadoria (…) se baseia no fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa (…) que, em sua legalidade própria, rigorosa, aparentemente racional e inteiramente fechada, oculta todo traço de sua essência fundamental: a relação entre os homens. (História e Consciência de Classe, Ed. Martins Fontes, p. 194)PORTAL ALEXANDRIA

 Desse modo, a forma mercadoria aparece na sociedade como algo natural e intransponível. Uma lei da natureza que se apresenta e submete a sociedade às necessidades de mercado, o homem se volta para o mercado e leva com sigo todas as esferas da relação social, assim também como tudo que é produzido em sociedade, produção intelectual, produção midiática, circulação de informações, política, direito, cultura etc. As produções culturais, artísticas e intelectuais tornam-se moldadas conforme a logica de um mercado que visa o maior numero de consumidores, excluindo assim as potencialidades do individuo e amputando da arte produzida aquilo que a torna objeto artístico, cultural ou intelectual, sua alma, toda a subjetividade que o autor imprimiu em sua obra lhe é excluída em favor do capital. De acordo com a analise lukatiana observamos que, ate mesmo as relações interpessoais são constrangidas pela presença do mercado, relações entre pessoas se transformam em formas utilitaristas de se adaptar ao modelo capitalista, moeda de troca num sistema de mercadorias, assim as próprias pessoas se veem como coisas na medida que se tornam uteis à objetividade do mercado. A racionalidade da empresa capitalista, de acordo com Lukacs, vai implicar na fragmentação do individuo e o coloca na posição daquilo que lukacs vai chamar de atitude contemplativa, exatamente essa aparência de lei natural do mercado que nos aparece sob uma falsa realidade intransponível e eterna, da qual o homem se mostra impotente e passivo diante dela. John Holloway vai apontar no aspecto da fragmentação do individuo, o estabelecimento do reino da identidade, suprimindo o homem de sua própria natureza. Mostra que a contradição entre o feito, produto do trabalho do homem, na forma mercadoria recusa o fazer, a própria atividade do trabalho humano. Essa ruptura é a gene da naturalização das formas sociais capitalista, legando ao fazedor (como Holloway identifica o homem na sua atividade produtiva) uma unidimensionalidade que homogeneíza a própria categoria da espécie humana e o submete ao tempo do capital. Ou seja, a abstração do trabalho submete o homem a uma identidade especifica que o leva a negar a sua própria enquanto ser humano e o caracteriza como mercadoria especifica destinada a uma função certa no mercado. Holloway vai dizer que “A identidade é a antítese do reconhecimento mutuo, da comunidade, da amizade e do amor” (Mudar o mundo sem tomar o poder. Ed, viramundo. Pg,108) e ainda quando cita Bublitz em uma discussão sobre Aristóteles “é impossível conceitualizar a amizade e o amor na base de uma lógica formal de identidade”(Idem, p. 108). Se voltarmos a Marx quando ele fala sobre a redução do trabalho complexo em trabalho simples, como por exemplo, o trabalho de um operário que tem em si igual valor do trabalho de um engenheiro, sendo que, a diferença é que no trabalho do engenheiro esta pressuposto maior quantidade de tempo socialmente aplicado no desenvolvimento da atividade produtiva, assim entendido, o próprio tempo social torna-se homogêneo na medida que todo trabalho complexo se resume em trabalho simples e o homem torna-se mercadoria, o valor da mercadoria fazedor torna-se homogêneo. E o tempo, de acordo com Holloway, torna-se uma categoria estática na perspectiva da própria identificação do ser. O homem se submete ao tempo racionalizado e previsível do relógio, o passado lhe apresenta como algo distante e primitivo e o futuro como uma extensão previsível do presente, assim as possibilidades de transformação são substituídas na mente do homem por uma identidade, uma coisa a qual o homem se destina, se submete e incorpora à realidade de coisa, torna-se o tempo um espaço entre coisas. Nesta perspectiva, a abstração do trabalho coloca tanto o operário quanto o burguês na mesma qualidade de seres alienados de suas consciências e da realidade enquanto seres humanos, mesmo que em lados opostos, submetidos a um reino de identidades rígidas e estáticas no tempo. Assim o fetichismo da mercadoria leva o homem a esquecer de sua natureza transformadora e os reifica em coisas voltadas para mercado.

Portanto, chegamos à conclusão de que a relação do processo de abstração analisado em George Lukacs esta diretamente ligada ao conceito de reificação das relações sociais pela supressão da consciência do homem enquanto ser transformador de sua realidade. E isso converge num reino de identidades submetendo o homem as exigências do mercado e os fazendo perder no tempo suas potencialidades enquanto seres humanos, os força a escolher uma identidade fixa e rígida abandonando tudo que poderiam ser enquanto qualidade humana. Como diz Holloway “As coletividades são formadas na base da identidade, na base do ser, em lugar de fazê-lo sobre o movimento do fazer” (Idem, p. 100).

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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