Uma reflexão sobre “Da Solidão” e “De como filosofar é aprender a morrer” em Montaigne.

POR: RENATO ALVES FRUTUOSO. 

michel-de-montaigneEste trabalho tem por objetivo a análise dos seguintes ensaios de Montaigne: “Da Solidão” e “De como filosofar é aprender a morrer”. Buscarei abordar de forma separada as ideias mais relevantes de ambos os ensaios e por fim estabelecer uma reflexão sobre transcendência que os mesmos têm sobre o senso comum.

O autor no ensaio “Da solidão” aborda o tema solidão não por um viés único e exclusivamente de isolamento físico, no qual a pessoa se isola de todos em busca de um refúgio. Pelo contrário, o fato da pessoa isolar-se não lhe garante o encontro com uma desejada “paz e tranquilidade”. Porque é impossível fugir de si mesmo, ou seja, os problemas vão consigo e só tendem a piorar na travessia, sobre isso o autor diz: “Se preliminarmente não descarregamos a alma do peso que a oprime, mais se machucará com o movimento”. (Montaigne, s/d, p.120). Sendo assim, independente do lugar físico que o sujeito esteja, ele precisa se libertar porque “Nosso mal está dentro da alma e esta não pode fugir de si mesma” (Montaigne, s/d, p.120). Contudo, para que isso acontecer é preciso encontrar em nós mesmos o nosso abrigo, ou seja, não ficarmos presos a nada que seja externo a nós, tanto bens matérias, quanto vínculos afetivos de amigos e familiares. Apesar de ambos não serem desprezíveis, conforme a citação elucida: “é preciso ter, se possível mulher, filhos, fortuna e principalmente saúde, mas não se prender a isso a ponto de prejudicar nossa felicidade” (Montaigne, s/d, p.120). Isso posto, nos leva a entender que quando se prende a esses valores citados acima, o homem fica vulnerável as flutuações da vida, sendo suscetível a perdas diversas e consequentemente a um sofrimento quase que inevitável. Mas por outro lado, se ele for capaz de fazer de si mesmo, sua própria fortaleza, fortaleza essa repleta de significados e desprendida de necessidades externas e supérfluas, por pior que sejam suas perdas, o mais importante estará em um lugar que ninguém poderá alcançar, independentemente do seu corpo físico esteja no campo, na cidade, na praia ou até mesmo em um cativeiro, suas riquezas subjetivas ficam blindadas e inalcançáveis.

O segundo ensaio a ser analisado “De como filosofar é aprender a morrer”, refuta o viés do senso comum de como a morte é encarada pela sociedade. Montaigne aborda esse tema considerado funesto por outra ótica, e sugere que ao invés de ter pela morte temor, podemos nos preparar para ela, já que a mesma nos ronda a todo o momento e nunca saberemos quando ela chegará, sobre isso o autor diz: “Não sabemos onde  a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir, nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento”. (Montaigne, s/d, p.51) A partir dessa meditação sobre a morte cristaliza-se algo evidente na trajetória de nossas vidas “desde o dia do vosso nascimento caminhais concomitantemente na vida e para a morte” (Montaigne, s/d, p.53), sendo a morte algo inerente da vida humana, Montaigne demonstra que está totalmente preparado para ela, por não ter a segurança do dia seguinte, por inúmeras fatalidades que todos nós estamos expostos, não se sente preso a compromissos e trabalhos pendentes e diz ainda “Quanto a mim, graças a Deus, estou em estado de desaparecer quando Lhe aprouver, sem nenhuma saudade do que a própria vida”. (Montaigne, s/d, p.51) Essa tranquilidade e serenidade que Montaigne demostra em relação à morte, que é algo que apavora a quase todos, resulta da aquisição da sabedoria e inteligência, conforme ele diz: “Porque de toda a sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer”. (Montaigne, s/d, p.48)

Portanto ao final da análise destes dois Ensaios, podemos encontrar um fio condutor que liga ambos. Montaigne, tanto no ensaio “Da solidão”, quanto no “De como filosofar é aprender a morrer”, transcende o senso comum, colocando lentes filosóficas para analisar os dois temas recorrente do cotidiano social, em qualquer tempo histórico, desencadeando assim novas possibilidades de percepção de mundo, como por exemplo: sobre a solidão ir muito além do isolamento físico, podendo só acontecer de forma plena quando a alma estiver livre de fatores externos. E como não temer a morte, tendo a consciência de que ao nascermos estamos caminhando para a ela, sendo a sua chegada imprevisível, além de não ter vida curta e nem vida longa e sim vida bem vivida.

RENATO ALVES FRUTUOSO

Filosofia, PUC-SP

ABRIL – 2012

Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: