III. O DEUS DE DESCARTES.

INTRODUÇÃO

Descartes_1Nesta dissertação pretendo abordar o problema cartesiano do método, por uma profunda reflexão sobre os caminhos percorridos por Renê Descartes em suas obras “Meditações sobre Filosofia Primeira” e “Discurso sobre o método”. Tendo como escopo,a elucidação de como Descartes traz sobre a luz unívoca da razão a possibilidade do conhecer, sem que essa possibilidade, a do conhecimento verdadeiro, seja um exponente dogmático em Descartes. O

u mais especificamente, como Descartes apresenta a razão como uma luz incontornável ao conhecimento das coisas em detrimento ao mundo sensível, e por meio da razão metafísica chegar à prova da existência de Deus sem que com isso caia nas lacunas do dogma.

Vou me utilizar de três momentos distintos, porém, contínuos em sua constituição. Advirto ao leitor que não leia esta dissertação como se fossem três temas que falam sobre Descartes, mas sim, um único texto no qual me convencionei a dividir por três temáticas que são continuas e necessárias para entender a aplicação do método cartesiano às Meditações sobre a Filosofia Primeira de Descartes.

Veremos adiante, que o caminha a percorrer se tornara mais claro a medida que nos permitirmos caminhar com Descartes em suas meditações.

O DEUS DE DESCARTES.PORTAL ALEXANDRIA

É impressionante como Descartes nos leva de mãos dadas em suas meditações aproxima-se do leitor e nos permite meditar com ele, recusa a postura do sábio dono de uma verdade, e sutilmente leva nossas cabeças a recostar no plumo da razão. Sem que demos conta logo nos tornamos íntimos a ele e adentramos seu mundo, mundo esse onde o rigor absoluto com bases metafísicas e cientificas submetem as artimanhas da opinião ao rigor da luz natural como base primeira para se alcançar a verdade incorruptível. Somente agora estamos aptos a mergulhar com Descartes nas profundezas mais escuras e profundas, lugar de onde homens já se aventuraram e muitos se perderam, um salto para o mais intimo de nossas questões, pois ate o mais humilde dos homens já se perguntou sobre a existência de Deus, mesmo que imerso em um mar de opiniões vulgares.

Desde o inicio das meditações está pressuposto uma duvida elementar, a da existência de Deus. Para isso ele mergulha em si mesmo, já que a possibilidade do conhecimento não está fora de si, nas coisas que possuem extensão, cumprimento e profundidade. Mas encontram-se nos pensamentos, visto que todo pensamento por si só prova sua existência (disto veremos adiante). Descartes para essa meditação mortifica os sentidos do corpo e cuida de inspecionar, agrupar e categorizar as operações da mente sob uma regra geral “é verdadeiro tudo que percebo muito clara e distintamente”6. Sob essa regra, ele primeiro se preocupa em resolver uma questão anterior, se há um Deus e se ele pode ser enganador. Para isso ele vai categorizar as operações da mente em: ideia, que são figuras mentais das coisas. Vontades ou afetos, algo arbitrário, relativo às paixões ou vícios. E juízos, a faculdade de atribuir algo como sendo certo ou errado e é ai, nos juízos, que se situa o perigo, pois o juízo é uma conclusão que pode estar sujeita aos enganos. Contudo as ideias guiadas pela razão são as verdadeiras, pois a medida que me aproprio de um modelo racional e logico de uma ideia me distancio de meus juízos provenientes de um impulso espontâneo dos meus sentidos. Como no exemplo do sol7: se o entendermos pelos olhos do corpo chegaremos à conclusão de que ele é muitas vezes menor que a terra e que se movimenta no céu quando na verdade, percebido pelos olhos do espírito, sabemos que ele é muitas vezes maior que a terra e que a terra se movimenta ao redor do sol. Com isso concluímos, na esteira de Descartes, que a ideia que tiramos dos sentidos é proveniente de nossos afetos e juízos. E daí que compreendemos que todo o pensamento por si só prova sua existência, mesmo que eu me engane sobre a distância e o tamanho do sol, não é menos verdade que a ideia que eu tenho de sol se remete a algo que convenciono chamar de sol, ou ainda, quando sonho ou penso em sereias ou criaturas provenientes de minha imaginação, os componho a partir de coisas existentes, cores, formas, tamanhos etc. Cabe a mim me posicionar na luz da razão para chegar ao conhecimento real das coisas.

Ainda de mãos dadas com Descartes, meditemos sob a ideia de perfeição à que atribuímos a Deus. Quando temos em nossa mente a ideia de perfeição, essa própria ideia prova sua existência, pois que, a ideia de perfeição não possui caráter somatório, como se ao pensar Deus estivéssemos pensando quantitativamente em um ser muitas vezes superior em qualidades à nós mesmos, isso é falso. A própria perfeição é uma ideia estável e plena, da qual nem mesmo poderíamos compreender em sua totalidade visto que essa ideia não demostra proporção. Além do que, essa ideia, perfeição, não poderia surgir do nada, porque do nada nada se cria. A ideia nasce com o homem, uma ideia inata, que só pode ter sido colocada em nossa razão por um ser de onde advém a própria perfeição, algo não perfeito não emana perfeição, e a perfeição, pelo próprio conceito de perfeição é a causa de si mesma, se fosse criada, não seria perfeito. Se Deus é perfeito, e essa ideia não possui qualidades somatórias, portanto, não pode existir dois seres perfeitos, o que compreendemos que para Deus não há competição, não há o que desejar que esteja fora de si, não há vontade de Deus que já não seja, se Deus quer, não vai acontecer, porque já é! As coisas extensas estão fora de mim porque eu tenho a ideia delas, quando falamos do conteúdo de nossos pensamentos, já estamos falando do que pertence ao mundo, já que atos de pensamentos visam trazer os objetos exteriores para o conteúdo da própria mente, portanto elas existem! Entre mim e o objeto existe a ideia da coisa, para um ser perfeito não existe intermédios verbais ou sígnicos, portanto a própria ideia de perfeição exclui a possibilidade de um deus enganador.

O Deus de Descartes se distancia do Deus revelado pela fé, é um Deus metafísico que tem uma base racional, ele próprio é a razão para a existência das coisas, um criador que colocou em nós a ideia da perfeição, mas não o entendimento da perfeição, porque só o perfeito pode compreender a perfeição.

Descartes se distancia do ceticismo por demostrar que as coisas podem ser provadas por intermédio da razão, ao atingir seu cogito, penso logo existo, ele estabelece o ser como base para se atingir o conhecimento. E também rompe com o dogmatismo abrindo caminho para uma nova categoria de pensamento na idade moderna, o racionalismo, atribuindo à razão a capacidade de estabelecer a verdade.

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4 DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. Trad. Fausto Castilho, Campinas, SP: Editora Unicamp, 2004. P 49.

Op. Cit., p.55.

6 Op. Cit., p.71.

Op. Cit., p. 79.

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I. A DÚVIDA E A RAZÃO EM DESCARTES.

II. DESCARTES : A ALMA DAS COISAS

III. O DEUS DE DESCARTES.

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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