II. DESCARTES : A ALMA DAS COISAS

INTRODUÇÃO

descartes3Nesta dissertação pretendo abordar o problema cartesiano do método, por uma profunda reflexão sobre os caminhos percorridos por Renê Descartes em suas obras “Meditações sobre Filosofia Primeira” e “Discurso sobre o método”. Tendo como escopo, a elucidação de como Descartes traz sobre a luz unívoca da razão a possibilidade do conhecer, sem que essa possibilidade, a do conhecimento verdadeiro, seja um exponente dogmático em Descartes. Ou mais especificamente, como Descartes apresenta a razão como uma luz incontornável ao conhecimento das coisas em detrimento ao mundo sensível, e por meio da razão metafísica chegar à prova da existência de Deus sem que com isso caia nas lacunas do dogma.

Vou me utilizar de três momentos distintos, porém, contínuos em sua constituição. Advirto ao leitor que não leia esta dissertação como se fossem três temas que falam sobre Descartes, mas sim, um único texto no qual me convencionei a dividir por três temáticas que são continuas e necessárias para entender a aplicação do método cartesiano às Meditações sobre a Filosofia Primeira de Descartes.

Veremos adiante, que o caminha a percorrer se tornara mais claro a medida que nos permitirmos caminhar com Descartes em suas meditações.

PORTAL ALEXANDRIA

A ALMA DAS COISAS

Como compreendemos no primeiro momento, Descartes elimina todas as opiniões que fora submetido desde a infância, e coloca-se a si mesmo sob um profundo critério de verificação consequentemente chegando à primeira certeza, a certeza do “Eu” o eu que duvida. Mas o que seria este “EU”, diria um homem, um animal racional?

O filosofo deixa de maneira sutil, porém evidente, no segundo momento de suas meditações, o seu método analítico no qual se propõe a dissecar a natureza das coisas. Partindo do pressuposto de que ele próprio é alguma coisa, consequente do próprio ato de duvidar, ele vai meditar sobre as particularidades da alma e do corpo decompondo, dividindo e organizando conforme suas especificidades fundamentais, iniciando por meditar sob as coisas mais simples que lhe ocorrem naturalmente. Como por exemplo, de que o corpo é dotado de forma, essa forma preenche um lugar no espaço, é dotado de muitos sentidos e é movido de muitas formas. Estas formas, que diz Descartes mover o corpo, fundamenta-se naquilo que podemos chamar de “dualismo cartesiano”, uma singularidade que divide a alma e o corpo em duas substancias distintas, matéria e espírito, duas essências da vida. Podemos citar a engenhosidade sutil que ele se remete a meditar à questão do corpo “Com efeito, ocorria-me, em primeiro lugar, que eu tinha um rosto, mãos, braços e toda essa maquina de membros, que se percebe também em um cadáver e que eu designava pelo nome de corpo”³. Sutilmente, ele nos diz que também um cadáver tem aquilo tudo que julgamos ser um homem, porem, o essencial, a substância  que lhe atribui movimento lhe falta, a alma ou mente, o que Descartes não distingue. O que seria então este “EU” que o filosofo distingue do corpo “Eu, eu sou, eu, eu existo, isto é certo […] se eu já não tivesse nenhum pensamento, deixasse totalmente de ser […] sou, portanto, precisamente ,só coisa pensante”4. Alma, ser que duvida, que pensa, o pensamento está em mim quando existo, esta é a essência que falta a um cadáver, que o impede de se movimentar e exercer as funções que atribuímos ao corpo é a alma, o pensar. Portanto, chega Descartes, a conclusão de que a alma é mais fácil de conhecer do que o corpo.

Fica evidente quando meditamos sobre o argumento da cera5,onde Descartes coloca em prova a forma de se apropriar do conhecimento das coisas mediante aquilo que esta para além do sensível, que a alma das coisas é apreendida pelo intelecto humano, e só pela razão alcançamos o conhecimento. Engenhosamente Descartes nos mostra que a forma como conhecemos algo não se apresenta pelos sentidos que nos enganam e nos da um conhecimento deturpado das coisas, mas em uma essência que é percebida pela inspeção da mente. Mesmo que a cera, quando aproximada ao fogo, mude de figura, sua temperatura e odor já não sejam os mesmos, e todos os aspectos provenientes dos sentidos se alterem, eu ainda o percebo como a cera, pois sua essência é percebida pela alma. Não pela faculdade de imaginar o que seria, mas por romper com um impulso espontâneo almejando alcançar a luz natural.

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³ DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. Trad. Fausto Castilho, Campinas, SP: Editora Unicamp, 2004. P 47.

4 Op. Cit., p.49.

5 Op. Cit., p.55.

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I. A DÚVIDA E A RAZÃO EM DESCARTES.

II. DESCARTES : A ALMA DAS COISAS

III. O DEUS DE DESCARTES.

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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