I. A DÚVIDA E A RAZÃO EM DESCARTES.

JJR_DescartesINTRODUÇÃO

Nesta dissertação pretendo abordar o problema cartesiano do método, por uma profunda reflexão sobre os caminhos percorridos por Renê Descartes em suas obras “Meditações sobre Filosofia Primeira” e “Discurso sobre o método”. Tendo como escopo, a elucidação de como Descartes traz sobre a luz unívoca da razão a possibilidade do conhecer, sem que essa possibilidade, a do conhecimento verdadeiro, seja um exponente dogmático em Descartes. Ou mais especificamente, como Descartes apresenta a razão como uma luz incontornável ao conhecimento das coisas em detrimento ao mundo sensível, e por meio da razão metafísica chegar à prova da existência de Deus sem que com isso caia nas lacunas do dogma.

Vou me utilizar de três momentos distintos, porém, contínuos em sua constituição. Advirto ao leitor que não leia esta dissertação como se fossem três temas que falam sobre Descartes, mas sim, um único texto no qual me convencionei a dividir por três temáticas que são continuas e necessárias para entender a aplicação do método cartesiano às Meditações sobre a Filosofia Primeira de Descartes.

Veremos adiante, que o caminha a percorrer se tornara mais claro a medida que nos permitirmos caminhar com Descartes em suas meditações.

PORTAL ALEXANDRIA

A DÚVIDA E A RAZÃO EM DESCARTES.

É quase inevitável não vir à memória a frase mais celebre à luz do nome pronunciado de Descartes “penso, logo existo”. No entanto a grande herança da filosofia cartesiana, é todo a estrutura na qual é montada as bases para se chegar ao conhecimento verdadeiro das coisas.

O princípio do método cartesiano é de que todas as coisas podem ser colocadas em duvida, tendo em vista que todos nós recebemos desde nossa infância coisas falsas por verdadeiras, ou seja, as opiniões em que construímos os frágeis alicerces de nosso conhecimento devem ser colocadas sob o questionamento de uma investigação racional. O princípio da dúvida deve ser de tal maneira que extrapole os limites stricto senso e seja elevada a enésima potência, aquilo que podemos chamar de dúvida hiperbólica. Refutar a origem do nosso conhecimento ate chegar ao conhecimento verdadeiro onde não se admite duvidas, é um requisito fundamental para a concepção de conhecimento em Descartes. De certo, como nos apresenta o filosofo, a dúvida e a razão são coautoras do conhecimento, em um movimento circular geradas no amago do “EU” de Descartes, este “EU” que é uma coisa pensante capaz antes de qualquer atividade, duvidar. A ponto de questionar os limites da realidade exacerbando as imposições do mundo sensível elevando ao extremo de se indagar da veracidade de sua própria vigília, ou ate mesmo da extensão de seu corpo “Sonhemos, portanto, e que aquelas coisas particulares – que abrimos os olhos, mexemos a cabeça, estendemos a mão e coisas semelhantes – não são verdadeiras e talvez não tenhamos também estas mãos, nem este corpo todo.” ¹ Assim é posta a dúvida em Descartes.

Esta duvida tem como finalidade procurar a razão ultima das coisas “a alma das coisas”. Porém, ao contrário do ceticismo, na esteira de Descartes, não nos perdemos nessa duvida ao invés, nos encontramos nela. É questionando as coisas que temos por mais certas que chegaremos à luz da razão sobre aquilo de que é possível de se conhecer. Mas, não andemos só! Andemos com o filosofo em suas meditações. Se não posso eu crer nas coisas tangíveis das quais possuem extensão, se não posso confiar em meus sentidos, pois já está provado que “os sentidos nos enganam e é prudente nunca confiar completamente nos que, seja uma vez nos enganaram.”² O que poderemos ter por certo então? Possivelmente aquilo do qual sua existência não dependa de mim. Uma verdade que esteja para além de minha manipulação, como a verdade metafisica ou matemática por exemplo. Por certo um mais dois sempre serão três, e dois mais três sempre serão cinco. Esta sentença nem nos sonhos o homem pode corromper. Mas ai o filósofo nos incita a olhar na direção que nos é proposto em seu método.

Suporei, portanto, que há não um Deus ótimo, fonte soberana da verdade, mas algum gênio maligno e, ao mesmo tempo, sumamente poderoso e manhoso, que põe toda a sua indústria em que me engane […] Manterme-ei obstinadamente firme nesta meditação, de maneira que, se não estiver em meu poder conhecer algo verdadeiro, estará em mim pelo menos negar meu assentimento aos erros (DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. Trad. Fausto Castilho, Campinas, SP: Editora Unicamp, 2004. P 31,33.)

É na esteira desta medição que Descartes chegara na sequência, e agora que compreendemos o percurso poderemos citar, à sua frase mais celebre “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo). Pois mesmo que haja um gênio maligno no qual sua empresa seja me enganar, é necessário que eu pense para ser enganado, e se eu penso, penso porque existo! E assim pela duvida chega Descartes a sua primeira certeza,

________________________

¹ DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. Trad. Fausto Castilho, Campinas, SP: Editora Unicamp, 2004. P 25.

² Op. Cit. , p. 23

———————————–

I. A DÚVIDA E A RAZÃO EM DESCARTES.

II. DESCARTES : A ALMA DAS COISAS

III. O DEUS DE DESCARTES.

Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: