RESENHA: Obra “PRINCIPIUM SAPIENTIAE” Autor F.M Cornford

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LIVRO: PRINCIPIUM SAPIENTIAE – AS ORIGENS DO PENSAMENTO FILOSOFICO GREGO.

AUTOR: Francis M. Cornford

CAPÍTULOS VII, VIII e IV

POR: Douglas Godinho Fernandes

CAPÍTULO VII: O FILÓSOFO COMO HERDEIRO DO POETA-VIDENTE

Esclarecendo as contradições existentes no pensamento contemporâneo, que persiste na crença da eterna divergência entre concepção cientifica e concepção religiosa. O capitulo VII do livro “PRINCIPIUM SAPIENTIAE: as origens do pensamento filosófico grego” nos apresenta a relação entre o filosofo, o poeta, e o vidente. A partir da analise mais especificamente dos filósofos pré-socráticos, o autor Francis M. Cornford,  aos poucos nos evidencia a indissociabilidade entre o saber filosófico e a inquietação interna que motiva tanto o sábio vidente, como o poeta dos primórdios da filosofia na busca de verdades que direcione o homem no caminho do bem e da virtude.

Para tal, Cornford nos remete as crenças transcendentais percorridas pelos filósofos da antiguidade, enfatizando a busca pela perfeição espiritual através de conhecimentos divinamente inspirados, como é o caso, por exemplo, de Parmênides, que afirma lhe ter sido divinamente revelado todo o conteúdo de seu poema por uma deusa. Esta lhe exortava a rejeitar os atributos do mundo sensível, posto como uma ilusão a atrair os homens para uma inverdade, Parmênides nos apresenta uma filosofia inspirada a fornecer provas de uma logica matemática, e por tanto, invariável por natureza, assim como a própria geometria Pitagórica. Outro ponto chave deste capítulo é a relação entre a filosofia eleática de Parmênides, e a filosofia dialética do seu antecessor Heráclito, tanto um quanto o outro afirmavam ser conhecedores da verdade, porém trilham por caminhos distintos. Muito antes de Parmênides, Heráclito professava o “Logos”, uma verdade eterna como realidade objetiva, que pode ser compreendida através dos sentidos do corpo, por aqueles que são sensíveis ao conhecimento divinamente inspirado por intermédio da natureza das oposições.

Obviamente o capitulo não se limita a analise apenas destes filósofos, porém o que nos importa na análise deste capítulo é entender que a condição necessária para compreendermos a indissociabilidade entre o sábio, o profeta e o poeta. É eliminar a noção de que o pensamento cientifico e religioso sempre foram opostos pela natureza do pensamento filosófico, este é um equivoco comumente articulado nas concepções contemporâneas. Seja na convicção teogônica, na crença da metempsicose ou nos rituais de xamanismo, Há sempre um amálgama indissolúvel que motiva o filosofo na busca do bem imutável e imperecível, que o conduzira num estágio espiritual superior, portanto percebe-se, que a busca do conhecimento não se limita no saber em si, mas o produto do conhecimento será a imortalidade da alma por intermédio do conhecimento da natureza, e de si mesmo como um ser numa cadeia espiritual evolutiva.

Este pensamento vai ser revisto e questionado a partir de Socrates que gera em seu amago um fruto de seu tempo. Novos conflitos, novas inquietações, um tempo onde os homens se encontram encobertos de verdades e certezas. Como num parto, Sócrates gera sua máxima “sei que nada sei”, contrariando o sábio que anteriormente dizia apto a ensinar, Sócrates ensina justamente por não saber, por não se considerar dono de uma verdade imutável ele se lança na busca de questionamentos. Portanto Sócrates divide a filosofia por ser ele único em repudio da ideia de que tinha com sigo qualquer revelação a fazer, acentuando um conflito entre o vidente e o filosofo, é o que veremos na analise do próximo capítulo.

CAPÍTULO VIII: O CONFLITO ENTRE O VIDENTE E O FILÓSOFO

Como no capítulo anterior chegamos à conclusão pela analise da obra de que o filosofo tem a sua ancestralidade arraigada aos dons divinais do sábio vidente e o poeta, já construímos conosco as bases de raciocínio para evidenciar, conscientemente, os conflitos que especificam estes três elementos. Cornford tematiza este capítulo com a análise do conflito entre o vidente e o filosofo, a começar pelas particularidades do vidente.

Diferentemente do poeta, que será analisado no capítulo posterior, a tarefa mais especifica do vidente era a de prever o futuro por meios intuitivos ou interpretação dos sinais da natureza, lhe seria próprio o dom de interpretar por inspiração divina os sinais enviados pelos deuses. Uma pseudociência natural conhecida como interpretação dos augúrios, este método se distancia da simples adivinhação por conter o caráter de interpretação dos sinais da natureza, é o que mais tarde evoluindo os métodos de observação e interpretação, será conhecido como a ciência do estudo dos fenômenos naturais, meteorologia. De acordo com Cornford, era forçosamente iminente o conflito entre os filósofos naturais, que desvendavam o porvir dos fenômenos da natureza baseado na compreensão e análise dos próprios fenômenos, e os profetas e videntes que agiam em favor dos deuses no intuito de lhes oferecer sacrifícios para lhes acalmar o temperamento que de acordo com eles estava indissociavelmente ligados as manifestações naturais. Um dos primeiros grandes problemas filosóficos da interpretação do futuro era a noção de que ele já estava previamente determinado. O destino então seria fruto da vontade divina e o homem estava amarrado a ele sem que mesmo a sua previsão o permitisse dobra-lo, excluindo assim o livre-arbítrio das ações humanas. O capítulo nos apresenta, por exemplo, Epicuro, que por defender a liberdade humana, questiona a noção da predeterminação divina e com isso a possibilidade de adivinhação, parte de sua obra vai se direcionar ao estudo da meteorologia, portanto, exemplificando o caráter fundamental que existia entre o conflito do filosofo e o vidente. Porém é necessário ressaltar o que este capítulo cuidadosamente apresenta, a não determinação entre os conflitantes, não podemos determinar que este agisse assim e o outro de forma oposta, o caráter de interpretação do divino e da natureza nunca foi estritamente dissociado, o capitulo apenas especifica as problematizações propostas pelos vários pensamentos da antiguidade. Por exemplo, Lucrécio que estava menos interessado na meteorologia como ciência, do que no estudo dos fenômenos da natureza que ainda era associado à vontade divina, até mesmo porque a interpretação racional e lógica dos fenômenos da natureza não comprometeria diretamente a ideia de que os deuses se utilizariam destes para manifestar suas vontades.

O verdadeiro embate estava na esfera das coisas cotidianas, a inquietação do filosofo em explicar os fenômenos da natureza chocava-se diretamente contra a arte do vidente e profeta de adivinhar o humor dos deuses. Portanto, o maior dos conflitos se estabelece no âmbito da interferência religiosa, posto que se os fenômenos podem ser explicados por maneiras naturais, sem a intervenção de divindades e oráculos, logo os profetas aos poucos vão perdendo o seu lugar de consultores na sociedade. E nisso resulta as acusações aos filósofos naturais de ateísmo, chegando ao seu ápice na antiguidade, o julgamento de Sócrates, que de certa maneira nada tinha a ver com este conflito, pelo menos não diretamente.

CAPÍTULO IX: O CONFLITO ENTRE A FILOSOFIA E A POESIA.

Neste capitulo, mais objetivo e conclusivo, Cornford logo no inicio nos apresenta um panorama de sua obra, esclarecendo de forma mais objetiva suas ideias principais. Demonstra que tanto o filosofo, quanto o poeta e o profeta, derivam de uma mesma gênese presente na figura do xamã, ao que mais tarde com os desdobramentos da história, se distinguiria num conflito em busca de suas identidades próprias. Cada um dos três reivindicando suas inspirações seja o profeta inspirado pelos deuses, o poeta pelas Musas ou o sábio pelo amor a verdade.

Após sua apresentação inicial, o autor nos leva a analisar mais profundamente os conflitos entre o filosofo e o poeta. Colocando-nos

Francis Macdonald Cornford 1874-1943

Francis Macdonald Cornford 1874-1943

frente às características da poesia, por exemplo, de Hesíodo que busca na teogonia e na cosmogonia, a criação inicial de um mundo ordenado, um campo que busca nos feitos dos deuses e dos mitos remontar o passado de sua origem. Fica evidente que enquanto couber ao poeta cuidar da visão do passado, não haverá meios de dissociar fatos de ficção, e poesia de história. Não posso deixar de mencionar aqui, quando na pagina 235, Cornford ressalta que a teologia especulativa dos poetas, era independente dos cultos, e distante de quaisquer interesses oficiais por parte dos sacerdotes, portanto não tinha caráter sagrado, e se manifestava livremente sem qualquer delimitação crítica. Cabia ao poeta, de acordo com as transformações na sociedade, alterar, corrigir ou expurgar a teologia, atribuindo assim sua própria critica a tradição homérica e hesiódica, de certo modo influenciados pelos filósofos que coloca sobre a teologia uma critica racional a trazer a luz sobre o mito e a verdadeira natureza das coisas, afetando o conceito de divino proposto pelos poetas, dai o conflito. Por exemplo, quando Xenófanes questiona a característica humana que os poetas atribuíam aos deuses, quando se dizia pela boca dos poetas que os deuses nasciam e os deuses morriam.  Não se-sabe ao certo se Xenofanes rejeitava a ideia de divindade ou apenas a ideia de haver vários deuses, mas o ponto central é que Xenófanes acentua o conflito ao dizer que  há um único deus que é o universo divino, eterno, uno, sempre igual, limitado, de forma esférica e capaz de percepção em todas as suas partes. Portanto isso nega toda a teogonia hesiodica.

Na analise destes três capítulos o autor, Francis M. Cornford consegue trabalhar de forma a fazer relação entre os três tipos,

sábio-vidente-poeta, evidenciando suas particularidades sem que estas eliminem a unidade que identificam suas origens reciprocas. E consegue defender sabiamente sua tese levando o leitor a conhecer a linha de pensamento de vários filósofos como Socrates, Heraclito, Platão, Xenófanes, entre outros. Poetas como Homero e Hesiodo que descrevem a teogonia e cosmogonia, e os profetas que tem suas tradições arraigadas no culto aos deuses, que lhes atribuíam o poder da adivinhação do futuro por meio de ritos, sacrifícios e interpretações dos augúrios.

Douglas G Fernandes

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Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

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