Mv Bill e a crítica ao sistema neoliberal

Este trabalho feito no curso de História em um instituto de ensino superior, visa o apontamento de conteúdos históricos a fim de se elaborar um plano de aula de acordo com os parâmetros curriculares nacionais “PCNs”.

Através da musica, livros diversos ou poesia, é possível apontar e identificar características que nos permitem compreender a mentalidade e os diversos aspectos que permeiam o cotidiano ou ruptura  de um determinado tempo histórico.

Contexto histórico: neo-liberal do Brasil, séc. XX e XXI. O rap surgiu no final do século XX entre as comunidades negras (emigrantes jamaicanos) dos Estados Unidos, como uma ferramenta de critica social.

Escola literária: Hip hop, um movimento cultural iniciado no final da década de 1970 nos Estados Unidos como forma de reação aos conflitos sociais e à violência sofrida pelas classes menos favorecidas da sociedade urbana. É uma espécie de cultura das ruas, um movimento de reivindicação de espaço e voz das periferias, traduzido nas letras questionadoras e agressivas, no ritmo forte e intenso, nos poemas musicados e nas imagens grafitadas pelos muros das cidades.

Estilo do autor: Rap, um discurso rítmico com rimas e poesias. É um dos cinco pilares fundamentais da cultura hip hop, sendo os outros quatro:

DJ (disc-jockey): Operador de discos, que faz bases e colagens rítmicas sobre as quais se articulam os outros elementos

MC (master of cerimonies): Mestre de Cerimônia, é o porta-voz que relata, através de articulações de rimas, os problemas, carências e experiências em geral dos guetos

Break dance: Break Dance (B-boying, Popping e Locking), por convenção, chama-se todas essas danças de Break Dance. Apesar de terem a mesma origem, são de lugares distintos e por isso apresentam influências das mais variadas.

Grafite: Expressão plástica, o grafite representa desenhos, apelidos ou mensagens sobre qualquer assunto, Sendo considerado por muitos uma forma de arte abstrata altamente influente na sociedade de hoje.

Aspectos históricos:

O rap desenvolveu-se com as festas nas ruas, nos anos 1970 por jamaicanos e outros. Eles introduziam as grandes festas populares em grandes galpões, com a prática de ter um MC (mestre de cerimônia), que subia no palco junto ao DJ e animava a multidão, gritando e encorajando com as palavras de rimas e de impacto social, até que foi se formando o rap. A origem do Rap veio da Jamaica, mais ou menos na década de 1960 quando surgiram os sistemas de som, que eram colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para animar bailes. Esses bailes serviam de fundo para o discurso dos “toasters”, autênticos mestres de cerimônia que comentavam, nas suas intervenções, assuntos como a violência das favelas de Kingston e a situação política da Ilha, sem deixar de falar, é claro, de temas mais polêmicos, como sexo e drogas. No início da década de 1970 muitos jovens jamaicanos foram obrigados a emigrar para os Estados Unidos da América, devido a uma crise econômica e social que se abateu sobre a ilha. E um em especial, o DJ jamaicano Kool Herc, introduziu em Nova Iorque a tradição dos sistemas de som e do canto falado e foi se espalhando e popularizando entre as classes mais pobres ate chegar a atingir a alta sociedade e se espalhar pelo mundo.

Apontamentos da obra de Mv Bill

No Brasil, o rapper Alex Pereira Barbosa, mais conhecido pelo nome artístico MV Bill (Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1974) nascido na Cidade de Deus, R .J. É um cantor compositor caracterizado por suas criticas sociais marcantes e influentes. Em sua musica “só Deus pode me julgar” na qual o titulo se refere à falta de competência do governo em administrar todas as instancias do contexto social, o autor caracteriza o período neo-liberal do Brasil no final do séc. XX e inicio do séc. XXI. Com frases marcantes, tal como…

“a maioria fala de amor no singular
Se eu falo de amor é de uma forma impopular
Quem não tem amor pelo povo brasileiro
Não me representa aqui nem no estrangeiro
Uma das piores distribuições de renda”

A musica se – refere ao amor de uma forma impopular, sendo o amor pelo próximo, de maneira a atingir a coletividade e se preocupar com a nivelação social. Diferentemente do amor no singular, um amor individualista gerado pelas concorrências sociais impostas no sistema capitalista. Um dos trechos mais  importante, seria onde ele se situa no tempo e no espaço (pós-abolição… mais de 500 anos)

“Preconceito sem conceito que apodrece a nação
Filhos do descaso mesmo pós-abolição
Mais de 500 anos de angústia e sofrimentos
Me acorrentaram, mas não meus pensamentos”

E ainda seguindo esse mesmo critério para suas criticas sociais, ele continua…

“A socialite assiste a tudo calada
Salve ! Salve ! Salve!
Oh ! pátria amada, mãe gentil
Poderosos do Brasil (…)

Novela de escravo a emissora gosta mostra os pretos
Chibatadas pelas costas
Faz confusão na cabeça de um moleque que não gosta de escola”

Referindo-se ao tempo da independência do Brasil, onde o povo tem se mantido omisso e passivo, ordeiro e controlado nas mãos dos governantes brasileiros, ressalta que isso tem se mantido ate os dias de hoje.  Ainda segue falando que a mídia prefere manter uma imagem preconceituosa do negro como escravo do que revolucionar dando-lhes oportunidades iguais colocando-os em posições igualitárias como um papel de protagonista na novela ou apresentadores de telejornal, um contexto que não tenha relevância à sua cor ou sua cultura.

O rapper se coloca em posição de ataque contra um sistema que se utiliza da mídia para deformar valores e conceitos, alterando a percepção de nossos jovens e infantilizando os adultos, desconfigurando culturas e implantando a necessidade de consumo, que cega o nosso povo e deixa um imenso vazio na construção de um país justo e igualitário.

Obra: musica

Só Deus Pode Me Julgar (Mv Bill)

Composição: Mv Bill

Vai ser preciso muito mais pra me fazer recuar
Minha auto-estima não é fácil de abaixar
Olhos abertos fixados no céu
Perguntando a Deus qual será o meu papel.
Fechar a boca e não expor meus pensamentos
Com receio que eles possam causar constrangimentos
Será que é isso? Não cumprir compromisso
Abaixar a cabeça e se manter omisso.
A hipocrisia, a demagogia se entregue à orgia
Sem ideologia, a maioria fala de amor no singular
Se eu falo de amor é de uma forma impopular
Quem não tem amor pelo povo brasileiro
Não me representa aqui nem no estrangeiro
Uma das piores distribuições de renda
Antes de morrer, talvez você entenda
Confesso para ti que é difícil de entender
No país do carnaval o povo nem tem o que comer
Ser artista, Pop Star, pra mim é pouco
Não sou nada disso, sou apenas mais um louco
Clamando por justiça, igualdade racial
Preto, pobre é parecido mas não é igual
É natural o que fazem no senado
Quem engana o povo simplesmente renúncia o cargo
Não é caçado, abre mão do seu mandato
Nas próximas eleições bota a cara como canditado
Povo sem memória, caso esquecido
Não foi assim comigo, fiquei como bandido
Se quiser reclamar de mim, que reclame
Mas fale das novelas e dos filmes do Van Daime
Quem vive no Brasil, no programa do Gugu
Rebolo, vacilou, agachou e mostrou
Volta pra América e avisa pra Madonna
Que aqui não tem censura meu pais é uma zona
Não tem dono, não tem dona, nosso povo ta em coma
erga sua cabeça que a verdade vem à tona.
É! Mantenho minha cabeça em pé!
Fale o que quiser, pode vir que já é!
Junto com a ralé Sem dar marcha ré!
Só Deus pode me julgar, por isso eu vou na fé !
Soldado da guerra a favor da justiça
Igualdade por aqui é coisa fictícia
Você ri da minha roupa, ri do meu cabelo
Mas tenta me imitar se olhando no espelho
Preconceito sem conceito que apodrece a nação
Filhos do descaso mesmo pós-abolição
Mais de 500 anos de angústia e sofrimentos
Me acorrentaram, mas não meus pensamentos
Me fale quem… Quem!?
Tem o poder… Quem!?
Pra condenar… Quem!?
Pra censurar… Alguém!?
Então me diga o que causa mais estragos
100 gramas de maconha ou um maço de cigarros?
O povo rebelado ou polícia na favela?
A música do Bill ou a próxima novela?
Na tela, seqüela, no poder corrupção
Entramos pela porta de serviço
Nossa grana não
Tapão … só pra quem manda bater
Pisando nos humildes e fazendo nosso ódio crescer (CV)
MST, CUT, UNE, CUFA (PCC)
O mundo se organiza, cada um a sua maneira
Continuam ironizando
Vendo como brincadeira, besteira
Coisa de moleque revoltado
Ninguém mais quer ser boneco
Ninguém mais quer ser controlado
Vigiado, programado, calado, ameaçado
Se for filho de bacana o caso é abafado
A gente é que é caçado, tratados como Réu
As armas que eu uso é microfone, caneta e papel
A socialite assiste a tudo calada
Salve ! Salve ! Salve!
Oh ! pátria amada, mãe gentil
Poderosos do Brasil
Que distribuem para as crianças cocaína e fuzil
Me calar, me censurar porque não pode fala nada
É como se fosse o rabo sujo falando da bunda mal lavada
Sem investimento, no esquecimento, explode o pensamento
Mais um homem violento
Que pega no canhão e age inconseqüente
Eu pego o microfone com discurso contundente
Que te assusta uma atitude brusca
Dignificando e brigando por uma vida justa
Fui transformado no bandido do milênio
O sensacionalismo por aqui merece um prêmio
Eu tava armado mas não sou da sua laia
Quem é mais bandido? Beira mar ou Sérgio Naya?
Quem será que irá responder
Governador, Senador, Prefeito, Ministro ou você?
Que é caçado e sempre paga o pato
Erga sua cabeça pra não ser decepado
É! Mantenho minha cabeça em pé!
Fale o que quiser pode vir que já é!
Junto com a ralé Sem dar marcha ré !
Só Deus pode me julgar por isso eu vou na fé !
Como pode ser tragédia a morte de um artista
E a morte de milhões, apenas uma estatística ?
Fato realista de dentro do Brasil
Você que chorava lá no gueto ninguém te viu
Sem fantasiar realidade dói
Segregação, menosprezo é o que destrói
A maioria é esquecida no barraco
Que ainda é algemado, extorquido e assassinado
Não é moda quem pensa incomoda
não morre pela droga, não vira massa de manobra
Não idolatro a mauricinho da Tv, não deixa se envolver
Porque tem proceder Pra que? Porque?
Só tem paquita loira, aqui não tem preta como apresentadora
Novela de escravo a emissora gosta mostra os pretos
Chibatadas pelas costas
Faz confusão na cabeça de um moleque que não gosta de escola
E admira uma intra-tek, Clik-clek Mão na cabeça
Quando for roubar dinheiro público
Vê se não esqueça
que na sua conta tem a honra de um homem envergonhado
Ao ter que ver sua família passando fome
Ordem e progresso e perdão
Na terra onde quem rouba muito não tem punição
É! Mantenho minha cabeça em pé!
Fale o que quiser pode vir que já é!
Junto com a ralé Sem dar marcha ré!
Só Deus pode me julgar por isso eu vou na fé !
 
Anúncios

Sobre Douglas G. Fernandes

Professor de História graduado pela UNIMESP e Filosofia graduando pela UNIFESP. Autor do Portal Alexandria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: